Inútil faxina


Mandaram-na varrer aquelas ideias da cabeça. 

Apesar de alguma relutância inicial, não demorou muito para que acreditasse que era mesmo o certo a se fazer. Obedeceu. Pôs-se a varrer as ideias, com força, produzindo um som rascante a cada movimento com a vassoura, um ritmo desvairado, varrendo, varrendo... 

Quando já estava à porta, pronta para empurrá-las para fora, um vento soprou contrário e mandou as ideias recém-varridas de volta para dentro. Isso aconteceu mais quatro vezes. Depois da quinta tentativa, ela trancou a porta barrando o vento, feliz pelo que julgava ser uma bela defesa mas, ao mesmo tempo, plenamente ciente de que o problema não fora resolvido. Tomada por um súbito cansaço, juntou as ideias com a vassoura novamente; agora, entretanto, levando-as para debaixo do sofá. Não era uma atitude louvável: ela sabia que sempre estariam ali e, mesmo que por um milagre as esquecesse, iria reencontrá-las algum dia. Como, então, seria?

Espelho já sem uso


Consolou-a. Pediu-lhe que não culpasse a si própria, garantindo-lhe que muito do que desejara nunca estivera mesmo ao seu alcance. 

Abraçou-a. Agradeceu-a pelas lições que aprendera, pelos conselhos dados mesmo que imperceptivelmente. Prometeu-lhe que, dali em diante, teria mais juízo. 

Afastaram-se, cada uma dando um passo para trás. Encararam-se como se encara um espelho. Tão semelhantes nos traços, mas tão diferentes no que carregavam nos olhos...! Um par de pupilas doce, gentil; outro, carregado de ressentimento, de um quase ódio que se continha. 

Ela, a mais velha, deu as costas primeiro. Mais fácil assim. Nunca mais veria aquela que fora, aquela que acabava de deixar. 

De costas, sorriu. Encerrava-se ali um fingido compromisso consigo mesma. Sentia-se livre. Sentia-se bem.

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