Dia após dia, saciemo-nos


A verdade é: as palavras que narram meu passado mal se lembram do que comeram no almoço. De que importa? No estômago tudo se mistura e o suco gástrico dá um jeito em muita coisa. O resto, tão passageiro... Minhas palavras sabem. Sabem e relevam. Sabem e preocupam-se apenas com o alimento que, mesmo que depois parcialmente esquecido, amanhã, outra vez, esperarão à mesa.


Embaraço


Nenhum creme para pentear que desse jeito. Sentimentos tão embaraçosos... Tão embaraçados...! Desciam-lhe pelas costas, acentuavam-lhe a cintura e, por vezes, enrolavam-se ao seu redor, fazendo com que o estômago se sentisse apertado. Às vezes mesmo, de espessos, a sufocavam. Às vezes, simplesmente — e como — irritavam! 

Cansada, pegou a tesoura e foi cortando um por um, assim bem na altura das orelhas. Caíram-lhe sentimentos e mais sentimentos aos pés. Cobriram o chão. 

Bobinha... Suas raízes permaneciam intactas. Mais dia menos dia, o inferno, outra vez.

Pequenina


Das mulheres que me habitam, só uma o amou: a pequenina, que abaixava os olhos e a voz quando dizia: “Ele é um cara legal”. Então corava, sentia-se boba, escondia-se, sumia por meses, por anos... Sumia e depois, crente de que enfim tinha a coragem de que precisava, voltava e se apresentava às companheiras de alma com um discurso longo e persuasivo sobre seu ponto de vista. Coitada... Uma vez centro das atenções, encolhia, fugiam-lhe os argumentos, via nos olhos das outras a razão rebatendo o que ainda nem dissera... Por fim, só dizia (e inaudivelmente): “Mas ele é um cara legal...” 

Sumia de cena outra vez.

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