Residual


Este chão, ainda não varrido,
coberto com fios do meu cabelo.
Os móveis, com uma camada clara
da porção da minha pele que virou poeira.
Meu travesseiro, meu colchão,
impregnados de tudo o que meu subconsciente,
quando adormeço,
acha insensato reprimir.

A cada metro quadrado,
mil resíduos de mim.

Como é que ainda existo?
Como ainda não me desfiz?



Sagrado


Semiconsciente,
segura o cansaço nos braços,
ansioso por entregá-lo em sacrifício
àquele cujos passos ressoam, suaves,
por detrás de suas pálpebras,
parecendo próximos e, simultaneamente,
parecendo que se distanciam.
E há quanto é que espera?
Sete séculos? Seis segundos?
Tudo está tão sombrio...
Tudo está tão confuso...

E de repente...
De repente dorme.

Poema amanhecido

As palavras que escrevi antes de dormir,
(aquelas que me pareceram tão bonitas),
enquanto eu dormia,
se embebedaram, se drogaram, se acabaram.

Quando da ressaca matutina,
não havia lirismo quando reclamavam de dor,
não havia emoção em suas vozes engroladas
nem beleza, sob suas olheiras roxas.

Suspirei fundo. Paciência.
Lápis e papel:
vamos lá outra vez...

Formulário de contato (para a página de contato, não remover)