Indulgências minhas

Meus versos livres abusam da própria liberdade.

Somem por dias,
sem mandar lembrança,
sem mandar notícia,
e, quando voltam,
de pés sujos,
invadem meu espaço
(a liberdade deles subjugando a minha)
e ordenam: “Transcreva-nos. Temos o que contar.” 

Sartre, Sartre...
O inferno são meus versos.

Rápida e enfadonha existência, póstuma insignificância


Nascido havia pouco, o sentimento ainda não tinha nome. Também era cedo para saber com o que se parecia — melancolia? Aflição? Arrependimento? Desespero? O sentimento, inominado e disforme, dormia muito. Mas ressonava alto, mantendo-me acordada. E quando, por sua vez, acordava, aí é que eu não dormia mesmo... E comia, como comia... Alimentava-se, vorazmente, dos meus pensamentos. Do meu tempo. De mim. Pelo bem ou pelo mal, durou pouco, o pobrezinho. Foi-se em setembro: uma rajada de vento o levou. E foi-se sem nome, foi-se sem forma. Foi-se sem rastro. Nenhuma lápide deixou para provar que um dia, de fato, existiu.


Véu


Sempre o vi através de um véu de surrealidade:
somente um vulto,
quando o olhava de viés.

Ou era em seus pés
que meus olhos pousavam
como que medindo os passos
que separavam
minha própria realidade
do que era óbvio, claro, fato
— mas que eu via opaco.

Ou não via.
Ou fingia que não via.

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