Rápida e enfadonha existência, póstuma insignificância


Nascido havia pouco, o sentimento ainda não tinha nome. Também era cedo para saber com o que se parecia — melancolia? Aflição? Arrependimento? Desespero? O sentimento, inominado e disforme, dormia muito. Mas ressonava alto, mantendo-me acordada. E quando, por sua vez, acordava, aí é que eu não dormia mesmo... E comia, como comia... Alimentava-se, vorazmente, dos meus pensamentos. Do meu tempo. De mim. Pelo bem ou pelo mal, durou pouco, o pobrezinho. Foi-se em setembro: uma rajada de vento o levou. E foi-se sem nome, foi-se sem forma. Foi-se sem rastro. Nenhuma lápide deixou para provar que um dia, de fato, existiu.


Véu


Sempre o vi através de um véu de surrealidade:
somente um vulto,
quando o olhava de viés.

Ou era em seus pés
que meus olhos pousavam
como que medindo os passos
que separavam
minha própria realidade
do que era óbvio, claro, fato
— mas que eu via opaco.

Ou não via.
Ou fingia que não via.

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