A força da força gravitacional

As cadeiras estão postas
para que nelas depositemos nossas frustrações.
É para isso que foram feitas as cadeiras
que evoluíram nas camas
que recebem, todas as noites,
os corpos cansados
transbordantes de angústia
a sujarem os lençóis brancos.

Tão brancos.

Maculemos as coisas todas
com a nossa descapacitação à felicidade...
Esperaram muito de nós.

Florilégio


Uma vez a cada não sei quanto tempo
esse florir em versos.
Encher-me de versos.
Lotar-me de versos.
Poesia a me pulsar no peito
e crescer pelos dedos
e depois resistir, indecisa,
à queda até o papel...

(Pois e se o vento a desvia
das irmãs-poesia?
Ou se, para as más poesias,
não houver céu?)


Lamas de Mariana

Não há peito que aguente barrar tanta sujeira...

Minhas feridas mal fechadas
com lama mal coagulada
denunciam o dia em que minha pele cedeu.
Minha dor,
livre e rápida,
densa e ávida,
de vingativa, me encobriu.
E de ver meu corpo tão sujo,
de ver minhas memórias tão sujas,
de ver minha história tão suja,
eu quis chorar meus peixes pútridos
dentre minhas lágrimas tóxicas.

Não houve alívio em lavar com lama
minha alma de tantas almas sujas de lama.

Não houve alívio,
bem o sabem minhas feridas mal fechadas,
minhas almas mal lavadas.

Poema pré-adolescente

Podia o livro comprado pela internet chegar hoje 
E você pensar em mim o dia todo 
E o sol não pegar no meu banco preferido no ônibus 
E meu banco preferido no ônibus estar vazio para eu me sentar 
E você se sentar ao meu lado em seguida 
E eu cumprimentá-lo com fingida indiferença 
E ler, para as borboletas no meu estômago, 
O primeiro capítulo do livro que chegou pela internet.

Amadurecimento

Pensamentos, pensamentos...
Linhas de pensamento
que se desenrolam
e vão se esparramar pelas ruas,
e vão se enroscar pelas árvores,
farão tropeçar apressados
e enlaçarão distraídos,
cobrindo distâncias de um universo inteiro,
uma, duas, três voltas em volta do globo,
e voltam a mim.

Voltam tão mudadas...
Não mais linhas de pensamento:
linhas de um poema.

Sola

Talvez a poeira no meu sapato
já tenha sido a poeira no seu sapato.
Talvez tenha sido até sua pele,
impregnando meus caminhos
como uma lembrança baça de outrora
— de quando havia mais que o pó.
É pensando sobre isso
que percebo que não quero pensar nisso;
deixo os sapatos fora de casa.

Reflexos

As luzes do semáforo refletiam-se alternadamente no asfalto molhado... Pareciam apenas se distrair com suas próprias cores, posto que, já havia um bom tempo, nenhum carro passava para que ordenassem parar ou seguir. A moça, da touca de lã amarela, das bochechas vermelhas de frio, dos olhos verdes e vazios, também se distraía; um toldo que pingava ao seu lado é que lhe prendia a atenção.
  
Uma, duas, três. Quatro gotas. Logo dez. Logo trinta.

Final de tarde, ninguém na rua e aquele céu que ameaçava se derreter em chuva outra vez.

Amarelo, depois vermelho, depois verde... Nenhum carro. Ninguém. 
  
Somou-se ao som das goteiras o dos saltos na calçada. Toc, toc, toc. Frustrada, voltava para a casa.

Revis(i)tas

Cavalos-marinhos não me lembram nada em especial...

Podia ser assim com as músicas bonitas
estragadas pelos momentos bonitos
que se tornaram momentos persistentes
(e de uma inconveniência sem tamanho)
a me arranharem o fundo da cabeça.
Dói.
E o pior é a lentidão do tempo
quando quer ser lento...
Nas salas de minhas longas esperas
folheio revistas velhas
revisitando saudades encarquilhadas
(que há muito já nem sabem meu nome).
Dói.
Redireciono meu olhar à porta;
quando é que a porta vai se abrir?

Expectativas aladas


Nossos olhares cruzados
nos conduzem
a uma nova infância:
por um segundo-mil-anos
tudo o que nos apraz é crível,
possível,
capaz...

Cremo-nos infinitos
mas, em seguida,
seguimos...

Rumamos desiludidos à Terra do Nunca Mais.

Indecifro-me num pranto inútil


Aperta o peito
a angústia que antecede o choro 
que se pretende alívio. 

Ah, quão pouco as lágrimas podem fazer por mim... 
Não mais do que o rosto vermelho, 
os olhos embaçados, 
o nariz a não me dar sossego 
e os pensamentos ardidos, 
molhados, 
amolecidos 
tal como o folheto de supermercado 
que tomou chuva no quintal 
e no qual agora não se lê mais nada. 
Mais nada.

Átimos


Asas. Asas altas no céu, asas coloridas dentre os pastos, asas fingidas de sementes e folhas que não têm asas, mas voam. Asas. Asas de sonhos que morreram puros e subiram ao paraíso. Asas de lembranças que, quando esquecidas, foram vagar sem rumo, sem esperança e sem função. Asas de um tempo-inferno que só sabe voar e zombar dos que não sabem. Asas. Tantas asas. Tantas asas a deslocarem, com seu movimento contínuo, qualquer consciência de mim... 

De repente, despercebo meu corpo. Num instante, sou alma, sou asas — e voo.


Jornada


A vida,
tão tênue naquele corpo tão magro,
achou por bem escalar o escarpado
das costelas mal escondidas
sob pele fina.

No topo,
íngreme e seco,
esperou.

Um sopro, e voou.



Autoria


Se existo é porque existo. Isso me basta para justificar minha existência e esta deveria lhe bastar para justificar o que sou. Por que você me pede tantos porquês? As coisas que faço... eu vejo sentido nelas e depois não vejo mais. O grande sentido sou eu: eu existo. Meus atos são só consequências do meu existir. Desse modo, não pedirei desculpas pelos estragos nem culparei outrem. O fato é que somos ignorantes por natureza, e toda a nossa ignorância advém, irônica e justamente, da nossa racionalidade. Fôssemos formigas, os danos seriam menores. Fôssemos vermes, os danos seriam menores. Mas não, somos humanos: eis nossa única culpa. Eis nossa eterna desculpa.

Fantasista


De manhã, o susto:
uma fada morta sobre o móvel mudo.
Vinda de qual tempo?
Vinda de qual mundo?

É em vão que pergunto...
Nenhuma resposta do móvel mudo.
Se dissesse qualquer coisa,
diria que durmo;
que é do sono que vêm os absurdos;
que a fada era um sonho vívido,
e agora, um sonho defunto.


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