Agu(a)çar


A chuva caindo firme, os olhos fechados com força. Aguçar os ouvidos para aguçar a alma. Aguçar a alma para aguçar os ouvidos. O som é ancestral: foi criado junto ao que me habita quando ainda nem havia corpo. (A chuva moldou o corpo.)


Estudo sobre o voo das horas

Muito se fala sobre o voo das horas, mas alguém de fato, algum dia, o observou? Bem tentei: afligia-me saber o feitio das asas, que altura levavam do chão ao céu. Perguntava-me: para onde vão as fugidias criaturas? Atravessam alguma barreira interdimensional e vão alvoroçar outros mundos? Cegam-se em desespero alucinado e se chocam contra os arranha-céus? Desintegram-se no ar num discreto e derradeiro adeus? Ou se aproveitam da vantagem de ninguém notar-lhes a presença e pousam, tranquilas, em algum campo longínquo e florido onde, como as saúvas, cortam as próprias asas e vão caminhar em paz? 

Bem tentei... Mas as horas, concluí, são tímidas. Uma vez observadas, disfarçam as intenções e não levantam voo. Dão voltas e voltas e voltas e não vão a lugar nenhum.


Gritos alucinados

1. 

Distraí-me; não vi que o dia 23 chegava. O ipê até alertou, Primavera! Primavera!, mas não dei ouvidos, só olhos. Os olhos se embasbacam ante a beleza das flores e não dão de primeira com o sentido dos avisos. 

2. 

Quente. Está tão quente. 

3. 

As cigarras se deliciam. Você tem ouvido seus gritos alucinados? (Se não, é porque eles já lhe penetraram o subconsciente e se naturalizaram como todos os ruídos contínuos. Como os absurdos que se repetem. Como a História.) 

4. 

Os gritos das cigarras excitaram os namorados que se amaram de janelas abertas. 

5. 

O problema das janelas abertas são os pernilongos. Eles também gritam, gritam como os ipês e as cigarras, gritam como todas as coisas que gritam e que, de tanto que gritam, não se ouvem. O ar que entra pela janela nos faz ignorar os pernilongos grudados em nossas pernas a nos sugarem o sangue. Até vemos as picadas, tantas a nos cobrirem a pele... Suspiramos fundo. Fazer o quê. (E então não vemos mais as picadas.) 

6. 

Quente. Está tão quente. 

7. 

Esquentam-se os nervos. Você me berra com sangue nos olhos (o pouco que lhe deixaram os pernilongos) que o seu candidato que o seu candidato que o seu candidato que o seu candidato que. 

8. 

Sua boca mexe lentamente, trêmula tal miragem desértica. Some a voz. Outros sons aumentam devagarinho, devagarinho... Então se escancaram: 

9. 

Os gemidos dos namorados sufocam seus gritos de ódio. Os gritos das cigarras relembram-nos o lema dos hippies. Os ipês oferecem as flores com as quais se vence o canhão.

10. 

 A natureza é sábia, ele não

“... and nothing more”

As unhas são roxas
desse frio interno
e da saudade eterna
de outras mãos mais quentes.

Habitam-me os extremos da Terra
onde os dias têm durações estranhas
as paisagens sãs monótonas
e o clima é inóspito:
neva, neva, neva.

Isolo-me nestes confins
e sei mentir quão bem estou.

(As unhas me contradizem,
agourentas como um corvo de Poe:
"Never, never, never".)

O bom filho

Antes que o carro parasse já tinha uma das alças da mochila no ombro. Sentiu a mão da mãe no pescoço, prestes a puxar-lhe para um beijo, mas foi mais ágil. Num átimo abrira a porta e pulara para o meio-fio. 
Os pés eram grandes demais. Pés enormes. Por isso era preciso olhar bem para eles, vigiar-lhes o ritmo e o rumo para que não o derrubassem. Só assim é que sabia andar: como se fugisse de algo e, ao mesmo tempo, cuidando para não cair. Se caísse na frente de todo mundo, aí sim, nunca mais voltava. 
... Por que voltava? 
Porque a mãe o trazia. Porque não se largavam os estudos assim. Porque era preciso ser alguém. 
Mas essas eram coisas que o forçavam... Queria saber o porquê ─ por que não contrariava a mãe, as leis, as expectativas... Por que voltava? 
Era bom em ciências, muito bom. Teria preferido ser bom nos esportes ou com garotas, mas calhou de só conseguir se destacar no que fazia dele um nerd. Isso e os óculos estranhos, os gostos estranhos, o jeito estranho. O estereótipo perfeito. 
Para além das aulas no laboratório, havia Sacha. Sacha não era bonita nem feia, nem especialmente interessante, mas foi gentil com ele algumas vezes e isso a tornou especial. Gostava de pensar nela. Gostava de pensar que poderia gostar dela. 
A justificativa era outra, contudo. Não se baseava em preferências acadêmicas ou sentimentalismos bestas. O grande porquê se enterrava numa camada bem mais profunda do seu ser, como um instinto, como algo primitivo gravado em seus genes. Como um sonho que não foi de fato sonhado, e que intriga tanto que, para desvendá-lo, lembranças absurdas são reviradas. Lembranças que não são nem lembranças. E com elas vêm os vermes. Brancos. Enormes. 
Aquilo... Sonhara ou não sonhara? Acontecera mesmo? Mas por que parecia um sonho? Mas por que, se era um sonho, parecia verdadeiro? 
Sonho não... Pesadelo. Lembranças e não-lembranças. Vermes brancos. Enormes. 
Brancos e enormes eram os tênis que os olhos voltaram a focalizar. Um deles tinha a ponta suja; andara chutando a terra enquanto se perdia em pensamentos. Nem percebera que parara. Nem percebera que chutara a terra. Que cavara, com o pé, uma cova do seu tamanho. E ninguém ao redor. Ninguém. Ninguém. Ninguém. 
A mãe já fora embora e não viria buscá-lo. Nada de beijos na bochecha. Nada de ciências e de Sacha. 
Noite fechada, escola deserta. Por que voltara? Por que sempre voltava? 

Carta n° 3 (fragmento)

[...]

Estivemos a conversar sobre as fadas que habitam o Monte Destino. Falamos baixo, naturalmente: as paredes sempre tiveram ouvidos, mas agora desenvolveram línguas e pernas e saem a fofocar por aí. Dia desses, mal se contiveram ao ouvir uma novidade que eu narrava a Suzi: iam correndo repassá-la à última casa do quarteirão. Só se seguraram porque, naquele instante, também o teto precisava ser segurado. 
Pois bem, conversávamos sobre as fadas do Monte Destino... O fato é que a rainha delas esteve adoentada, e uma sua sobrinha vinha conspirando contra as primas princesas para tomar-lhes a posição de herdeiras. O próximo passo seria apressar o fim da tia, mas os planos todos foram vetados quando denunciaram suas tramoias. Creio que teve a cabeça arrancada. Suzi duvida, acha que tamanha violência não condiz com a pureza dos seres místicos. Pura é Suzi, e eu a invejo por isso. 
Vlad, Vlad... As horas aqui não passam. Escrevo cartas para tentar matar o tempo que me mata. Agradar-me-ia mais cortar-lhe a cabeça como fizeram à sobrinha real, mas falta fio à ponta da caneta e a caneta é tudo o que tenho. (Seriam necessários golpes demais para causar o mínimo estrago.) 
No mais, sinto sua falta. No mais, que é o todo, que é tudo. Perdoa-me os supostos delírios e mantenha os olhos bem abertos. Em dias como estes, ciscos serão o menor de seus problemas.

 Com amor,
Laetitia.

A memória da persistência

Você pensou em mim por pouco tempo
e muito pouco.
Você pensou em mim assim:
de canto de mente.
Na visão periférica do pensamento
minha forma meio sem forma,
meio sem nome,
meio sem porquê.
Você pensou em mim assim:
sem querer.
(Distração dentro da distração
mero vulto
assombração fajuta que nem assustar assusta
mas, ainda que fantasma, eu estava ali.
Ainda que fantasma, eu não morri.)


Beiradas

Namoradeiras assustam
porque encaram
e depois dão medo
porque são de gesso
e é de gesso
a espera eterna
o regozijo
é um esbarrão bem dado
e então os cacos
catados do chão.

Uma hora

Pessoas inclinadas sobre smartphones
esperando o ônibus que não chega
a fila que não anda
o médico que não chama
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a matar o tempo
que as inclinará de vez um dia
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a crer que por meia hora
o tempo não passa
mas que passado esse tempo
o tempo passará tão rápido
que, nossa, não há tempo!
Mas há esperança...
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a crer
que o sistema é justo
que o sistema é santo
e as recompensará um dia.
Pessoas inclinadas sobre smartphones
são ponteiros apontando 1h:
"Uma hora eu enriqueço - compro carro - compro casa - viajo o mundo
Uma hora faz sentido essa demora
Uma hora..."

Tutela poética

Para onde vão os poemas
que não se anotam na hora
porque o egoísmo da hora
negligencia os poemas
e faz com que os coitados,
chateados, sem futuro,
saiam pisando duro
e atravessem a porta
para um caminho sem volta
para um final obscuro...

(E assim eles se perdem
sem deixar pista ou notícia
ficam vazias as estrofes
sem cruz,
identificação,
sem poesia.)

Palavras podem ser sádicas e cruéis

1. 

Dentre os escritos, um papel manchado de sangue. Não me lembro de ter sangrado enquanto escrevia... De que tanto eu sofria? 

2. 

Talvez não tenha sido eu a sangrar, mas o papel. Palavras podem ser afiadas como lâminas. Palavras podem ser sádicas e cruéis. 

3. 

Ou era só caneta vermelha estourada. Sei lá. 

Pequenos consertos

Talvez eu nunca remende
o buraco do pijama
ainda que isso seja tão fácil
quanto lhe dizer um oi
e eu não faço nenhuma dessas coisas
porque o tempo,
ah, o tempo...,
eu não posso culpar o tempo
nem você
nem as costuras que se desfazem
nem mesmo a mim
pois não há culpa
pois não há nada contra
os atos simples
mas tão simples
que de humildes se encolhem
às nossas vistas
e se relegam à negligência infinda
à ficção do depois.

Contrassusto

As coisas que caem do quarto de cima
atravessam o teto
perfuram-me o peito
e se cravam profundas
neste adro de hojes
cheio de ontens-e-amanhãs fantasmas
que se espantam com os projéteis
tombando entre as lápides
com os projéteis fazendo um estrago danado
ao assombro que causavam
neste corpo cansado
que se assusta com os fantasmas
e mais ainda
com o que é derrubado
no quarto de cima.

Vento

Quando voltou a si, os olhos davam direto no relógio da parede da cozinha. 
Vinte para uma. 
Arrastou a cadeira com um rascar que ecoou pela casa silenciosa; levantou-se, já com o prato na mão. Os restos de comida ali estavam ressecados... Aumentava a dificuldade de esfregá-los o fato de o pulso estar dolorido ─ aguentaram tempo demais a cabeça apoiada à mão, ele e o cotovelo que também doía... 
Terminou de secar a pia, passou um pano na mesa, voltou a cadeira ao lugar. Fácil arrumar uma cozinha que abriga uma pessoa só. 
Foi indo para o quarto. No corredor, a corrente de ar fazia com que as portas fechadas tremessem em seus lugares, como que de frio. Frio... Estava frio... Era o ar ou eram os olhares nos porta-retratos que a faziam tremer como as portas? Aqueles olhos sem cor, todos tão sérios. Pareciam reprová-la, julgá-la, mas não deixavam de ser suas únicas companhias, os seus falecidos. 
Ao fim do corredor, um porta-retrato menor e mais leve tremelicava com o vento. Ali uma figura sorridente, um bebê bonito, o filho que nunca vira crescer. Colocou a mão sobre ele, firmando-o contra a parede. Sentiu como se quisesse transmitir-lhe força, como se quisesse tornar, num passe de mágica, a moldura dez vezes mais pesada, como se quisesse dar ao menino a solidez de um passado bem vivido. 
No momento em que retirou a mão, a criança voltou a debater-se inocentemente contra o concreto. Queria se libertar daquele maldito prego que a queria quietinha, bem quietinha. Ela suspirou, meio consternada. Juízo, menino, juízo... 
Entrou no quarto e foi direto ao armário pegar um casaco. A janela dava para o terreno nos fundos da casa, e ali ventava de assoviar. Uuuuuuuuuuuuu, entrando pelo vidro semiaberto; uuuuuuuuuuuuuuu, sem cerimônia, espalhando-se pelo cômodo. 
A porta do quarto bateu com força, fazendo com que, a julgar pelo barulho, uma das molduras do corredor se espatifasse contra o chão. Ela deu um grito abafado, já pensando na fotografia do filho. 
Fechou a janela e tornou a abrir a porta. De fato, era a moldura pequenina a que se quebrara, mas não havia foto, não havia foto nenhuma. 
Correu à janela da cozinha, olhando desesperada de um lado para o outro a ver se achava um garoto alegre se aventurando pelos ares. 
Nem sinal. 
Inconformada, foi voltando pelo corredor, e foi se dando conta de que os porta-retratos todos estavam sem imagens. Havia uns seis anos que era assim. Aproveitara-se de uma moda que propunha molduras vazias nas paredes para se livrar dos seus fantasmas. Os fantasmas, aparentemente, é que insistiam em não se desgarrarem dela. 
Começou a catar os cacos do chão. Das molduras vazias, observavam-na. Dos pedaços do porta-retrato caído, o menino ria, e ria, e ria.

Atravancada

Surgem hematomas nas pernas
assim como surgem os móveis no meio do caminho.

Tão distraída...

(Distrai-me é você sempre à frente
nos corredores da mente.)

Falta espaço.
Céus, falta espaço em tudo.

Mutualismo

Enroscam-se palavras entre meus sentimentos
como uma planta atrevida
a sugar-lhes o viço.
Mas os sentimentos, é preciso ser dito:
assim ornados, são mais bonitos.



Anúncio outonal


Eu gosto desse vento frio
a tocar-me as pernas
que vinham se dando ao luxo
de andarem descobertas...

E é só agora que o céu se despe:
nuvem por nuvem, nu.

Um céu assim tão aberto não há de passar frio no inverno? 

O vento aumenta,
um arrepio me percorre;
cubro-me enquanto o resto se descobre.


“Cadarços, desuni-vos”

Cadarços são revolucionários:
não aceitam a própria condição
Vivem rebelados
tentando derrubar o patrão
E por mais que este se agache
e dê-lhes um nó apertado
logo outra vez estão
os cadarços desamarrados

Cadarços são revolucionários.

Ritmo

Abençoados sejam os motoristas
que dão passagem aos pedestres
nos dias de chuva.
Nos dias todos, pensando bem.
Um “obrigada” que se lê labialmente,
passadas rápidas que é pra não atrasar o trânsito.
Pronto,
o outro lado da rua.
Há vida ainda.
Há vida num passeio traiçoeiro
enfeitado de caixas velhas
e postes
e gente que anda devagar demais,
devagar demais... 
Mas a apressada sou eu.
E pra quê?
Atravessar, atravessar, atravessar...
Há de chegar o dia em que não haverá o outro lado da rua;
desentendo minha própria pressa.
Nem pretendo entendê-la, confesso.
Aperto o passo; ainda há rua.

Inspirada como Deus quando criou os morangos

1. 

Deus devia estar tão inspirado quando criou os morangos... Não sei como criar morangos, mas às vezes crio poemas. Os motivados por você são doces que nem morangos. 

2. 

Minto: nem todos. Nem sempre os morangos são doces. 

3. 

Então eu abri o congelador e achei a crosta de gelo tão bonita... Intruso como feijões em um pote de sorvete: você. Por que diabos fui lembrar de você ao olhar para o gelo, caramba? 

4. 

Não, tudo bem, eu sei... A resposta é fácil demais. 

5. 

Estou inspirada como Deus quando criou os morangos. Ou só apaixonada. 

6. 

Apaixonada? 

7. 

Não, apaixonada não: saudosa. 

8. 

Não, saudosa não: faminta. Foi para isso que vim à cozinha, afinal. Para comer. 

9.

Mais talvez do que o amor, a fome desperta conclusões estranhas. 

Pós-sono

Eu não sou um rosto bonito pelas manhãs,
tampouco uma alma pura
quando é tanto o que me assusta
no que está por vir.
Os dias vêm sorrateiros demais
para que confiemos neles...
Acordamos e lá está um dia
a nos encarar de cima da cama
estendendo a mão e dizendo “Vem”.
Vem pra onde, caramba?! 
A rota das formigas no formigueiro
não me agrada
nem me agrada
o vagar sem rumo
daquele que largou tudo
e que agora é só no mundo.
Eu não sei bem o que eu quero.
Eu nunca soube.
Eu ainda tão atordoada
do último sonho que tive
e um dia inteiro a me esperar num quarto
a ocupar um quarto
a me apertar num quarto
e me sufocar até que eu levante.
Que eu me arranje.
Que eu vá.

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