Contrassusto

As coisas que caem do quarto de cima
atravessam o teto
perfuram-me o peito
e se cravam profundas
neste adro de hojes
cheio de ontens-e-amanhãs fantasmas
que se espantam com os projéteis
tombando entre as lápides
com os projéteis fazendo um estrago danado
ao assombro que causavam
neste corpo cansado
que se assusta com os fantasmas
e mais ainda
com o que é derrubado
no quarto de cima.

Vento

Quando voltou a si, os olhos davam direto no relógio da parede da cozinha. 
Vinte para uma. 
Arrastou a cadeira com um rascar que ecoou pela casa silenciosa; levantou-se, já com o prato na mão. Os restos de comida ali estavam ressecados... Aumentava a dificuldade de esfregá-los o fato de o pulso estar dolorido ─ aguentaram tempo demais a cabeça apoiada à mão, ele e o cotovelo que também doía... 
Terminou de secar a pia, passou um pano na mesa, voltou a cadeira ao lugar. Fácil arrumar uma cozinha que abriga uma pessoa só. 
Foi indo para o quarto. No corredor, a corrente de ar fazia com que as portas fechadas tremessem em seus lugares, como que de frio. Frio... Estava frio... Era o ar ou eram os olhares nos porta-retratos que a faziam tremer como as portas? Aqueles olhos sem cor, todos tão sérios. Pareciam reprová-la, julgá-la, mas não deixavam de ser suas únicas companhias, os seus falecidos. 
Ao fim do corredor, um porta-retrato menor e mais leve tremelicava com o vento. Ali uma figura sorridente, um bebê bonito, o filho que nunca vira crescer. Colocou a mão sobre ele, firmando-o contra a parede. Sentiu como se quisesse transmitir-lhe força, como se quisesse tornar, num passe de mágica, a moldura dez vezes mais pesada, como se quisesse dar ao menino a solidez de um passado bem vivido. 
No momento em que retirou a mão, a criança voltou a debater-se inocentemente contra o concreto. Queria se libertar daquele maldito prego que a queria quietinha, bem quietinha. Ela suspirou, meio consternada. Juízo, menino, juízo... 
Entrou no quarto e foi direto ao armário pegar um casaco. A janela dava para o terreno nos fundos da casa, e ali ventava de assoviar. Uuuuuuuuuuuuu, entrando pelo vidro semiaberto; uuuuuuuuuuuuuuu, sem cerimônia, espalhando-se pelo cômodo. 
A porta do quarto bateu com força, fazendo com que, a julgar pelo barulho, uma das molduras do corredor se espatifasse contra o chão. Ela deu um grito abafado, já pensando na fotografia do filho. 
Fechou a janela e tornou a abrir a porta. De fato, era a moldura pequenina a que se quebrara, mas não havia foto, não havia foto nenhuma. 
Correu à janela da cozinha, olhando desesperada de um lado para o outro a ver se achava um garoto alegre se aventurando pelos ares. 
Nem sinal. 
Inconformada, foi voltando pelo corredor, e foi se dando conta de que os porta-retratos todos estavam sem imagens. Havia uns seis anos que era assim. Aproveitara-se de uma moda que propunha molduras vazias nas paredes para se livrar dos seus fantasmas. Os fantasmas, aparentemente, é que insistiam em não se desgarrarem dela. 
Começou a catar os cacos do chão. Das molduras vazias, observavam-na. Dos pedaços do porta-retrato caído, o menino ria, e ria, e ria.

Atravancada

Surgem hematomas nas pernas
assim como surgem os móveis no meio do caminho.

Tão distraída...

(Distrai-me é você sempre à frente
nos corredores da mente.)

Falta espaço.
Céus, falta espaço em tudo!

Mutualismo

Enroscam-se palavras entre meus sentimentos
como uma planta atrevida
a sugar-lhes o viço.
Mas os sentimentos, é preciso ser dito:
assim ornados, são mais bonitos.



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