Uma hora

Pessoas inclinadas sobre smartphones
esperando o ônibus que não chega
a fila que não anda
o médico que não chama
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a matar o tempo
que as inclinará de vez um dia
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a crer que por meia hora
o tempo não passa
mas que passado esse tempo
o tempo passará tão rápido
que, nossa, não há tempo!
Mas há esperança...
Pessoas inclinadas sobre smartphones
inclinadas a crer
que o sistema é justo
que o sistema é santo
e as recompensará um dia.
Pessoas inclinadas sobre smartphones
são ponteiros apontando 1h:
"Uma hora eu enriqueço - compro carro - compro casa - viajo o mundo
Uma hora faz sentido essa demora
Uma hora..."

Tutela poética

Para onde vão os poemas
que não se anotam na hora
porque o egoísmo da hora
negligencia os poemas
e faz com que os coitados,
chateados, sem futuro,
saiam pisando duro
e atravessem a porta
para um caminho sem volta
para um final obscuro...

(E assim eles se perdem
sem deixar pista ou notícia
ficam vazias as estrofes
sem cruz,
identificação,
sem poesia.)

Palavras podem ser sádicas e cruéis

1. 

Dentre os escritos, um papel manchado de sangue. Não me lembro de ter sangrado enquanto escrevia... De que tanto eu sofria? 

2. 

Talvez não tenha sido eu a sangrar, mas o papel. Palavras podem ser afiadas como lâminas. Palavras podem ser sádicas e cruéis. 

3. 

Ou era só caneta vermelha estourada. Sei lá. 

Pequenos consertos

Talvez eu nunca remende
o buraco do pijama
ainda que isso seja tão fácil
quanto lhe dizer um oi
e eu não faço nenhuma dessas coisas
porque o tempo,
ah, o tempo...,
eu não posso culpar o tempo
nem você
nem as costuras que se desfazem
nem mesmo a mim
pois não há culpa
pois não há nada contra
os atos simples
mas tão simples
que de humildes se encolhem
às nossas vistas
e se relegam à negligência infinda
à ficção do depois.

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