Carta n° 3 (fragmento)

[...]

Estivemos a conversar sobre as fadas que habitam o Monte Destino. Falamos baixo, naturalmente: as paredes sempre tiveram ouvidos, mas agora desenvolveram línguas e pernas e saem a fofocar por aí. Dia desses, mal se contiveram ao ouvir uma novidade que eu narrava a Suzi: iam correndo repassá-la à última casa do quarteirão. Só se seguraram porque, naquele instante, também o teto precisava ser segurado. 
Pois bem, conversávamos sobre as fadas do Monte Destino... O fato é que a rainha delas esteve adoentada, e uma sua sobrinha vinha conspirando contra as primas princesas para tomar-lhes a posição de herdeiras. O próximo passo seria apressar o fim da tia, mas os planos todos foram vetados quando denunciaram suas tramoias. Creio que teve a cabeça arrancada. Suzi duvida, acha que tamanha violência não condiz com a pureza dos seres místicos. Pura é Suzi, e eu a invejo por isso. 
Vlad, Vlad... As horas aqui não passam. Escrevo cartas para tentar matar o tempo que me mata. Agradar-me-ia mais cortar-lhe a cabeça como fizeram à sobrinha real, mas falta fio à ponta da caneta e a caneta é tudo o que tenho. (Seriam necessários golpes demais para causar o mínimo estrago.) 
No mais, sinto sua falta. No mais, que é o todo, que é tudo. Perdoa-me os supostos delírios e mantenha os olhos bem abertos. Em dias como estes, ciscos serão o menor de seus problemas.

 Com amor,
Laetitia.

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