Estudo sobre o voo das horas

Muito se fala sobre o voo das horas, mas alguém de fato, algum dia, o observou? Bem tentei: afligia-me saber o feitio das asas, que altura levavam do chão ao céu. Perguntava-me: para onde vão as fugidias criaturas? Atravessam alguma barreira interdimensional e vão alvoroçar outros mundos? Cegam-se em desespero alucinado e se chocam contra os arranha-céus? Desintegram-se no ar num discreto e derradeiro adeus? Ou se aproveitam da vantagem de ninguém notar-lhes a presença e pousam, tranquilas, em algum campo longínquo e florido onde, como as saúvas, cortam as próprias asas e vão caminhar em paz? 

Bem tentei... Mas as horas, concluí, são tímidas. Uma vez observadas, disfarçam as intenções e não levantam voo. Dão voltas e voltas e voltas e não vão a lugar nenhum.


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