Como se confeccionam perguntas típicas

“Então é Natal, o que você fez?”

(Luzinhas piscando em alerta
o quê - o quê - o quê.)

Sorrio semi-sem-graça
porque fiz poemas,
muitos poemas,
mas não se respondem "poemas"
a uma pergunta como essa
e na pressa
de sumir cena
quase passo,
com covardia,
o peso sobre meus ombros
ao mais novo da família
− com outra pergunta,
e ainda mais daninha:
“E as namoradinhas?”

Pavê

P’a vê com’é que a vida
se repete a cada ano...
Os tios ganham algumas rugas
e alguns cabelos brancos
mas não perdem a piada
nem as tias perdem a receita
que fazem resignadas
enquanto lembram de
Fulano quando era menino, lembra?
Ele tinha tanto medo
que o Papai Noel ficasse preso
dentro da chaminé...

Ainda que Papai Noel não exista,
muito menos chaminés.

(Mas sempre existiu a cozinha
onde se prendem,
sozinhas,
a vó,
a mãe,
as tias.)

Grande Família

 As pessoas vão sumindo das fotos 
 e as fotos vão sumindo dos álbuns 
 mas é importante que se mantenham: 
 − as taças cheias; 
 − as tretas depois da ceia. 

O Tempo Perdido da Busca

Não tem mais a mesma graça
ver o rosto espelhado
na esfera natalina
(em seguida afastá-lo
aproximá-lo
afastá-lo
– o nariz alarga e afina,
alarga e afina).

Nem tem mais a mesma graça
de quando menina
pendurar as esferas na árvore
ou montar a árvore
ou sequer tirar a árvore
da caixa empoeirada
de cima do armário
mas penso, profunda e comigo:
da infância restou o açúcar 
que sempre fica 
no prato dos figos.

(Ainda que,
quando criança,
eu não comesse figo.)

Tradição

Todo ano,
quando falta um mês para o Natal,
eu penso Meu Deus,
falta um mês para o Natal.

Mas não monto árvores
nem compro presentes
nem enfeito a casa.

Apenas remoo outros clichês tradicionais
(sabor baunilha e com frutas cristalizadas)
como:
O tempo passa tão rápido.
Ou:
Talvez neste ano eu devesse
montar a árvore,
comprar presentes,
enfeitar a casa. 

Simpatia

Resgatar formigas nas canecas
é como lhes compenso
o peso dos meus pés.
Nada no mundo passa incólume:
nem a água na caneca,
nem a formiga,
nem a água com a formiga quando vista por um poeta.

Ele a bebe com os olhos,
e os olhos fazem bem à formiga.

Halloween

Ele disse Tá vendo, é só balançar as chaves que os passados vêm correndo. Eu ouvi as patas a derraparem em corrida e vi o sorriso em seu rosto e senti a alegria que o uniu às suas criaturas quando cruzaram a porta do quintal de dentro, pulando em suas pernas, abanando o rabo e pedindo um passeio, e a ternura com que ele acariciava cada um daqueles passados tão bem cuidados, o pet-shop da Reinvenção lhes aparou o pelo e perfumou o pelo mesmo que alguns mal tivessem pelos mais, e lhes puseram lacinhos no alto da cabeça, e lhes emperequetaram assim, como se estivessem vivos, para agradarem aquele dono que sacudia chaves a chamar para um passeio, e eu observando a cena também sorrindo, e eu de repente ouvindo o chão tremer, bang, bang, bang, bang, cada passo um terremoto, cada passado emperequetado tremia, gania e se escondia como podia, bang, bang, bang, bang, cada vez mais rápido, mas a cena em câmera lenta, em câmera lenta foi que surgiu à porta o passado mais feio que já vi, de nada adiantaram os lacinhos porque aquele passado os arrancou e comeu e tinha pedaços deles agarrados entre os dentes, aquele passado rosnava e salivava e eu não tinha medo, eu não tinha medo porque não era a mim que ele olhava, tinha pena de quem era olhado, as chaves caíram ao chão, já nem sinal dos passados emperequetados, apenas o dono de um passado-monstro em que tempo-shop nenhum dera jeito, apenas aquele passado e um dono desdonado que atravessou a porta e correu, correu como se não houvesse amanhã, como se só houvesse ontens.

Nado-me

Desvio-me de propósitos santos
quando a mão pega a caneta
pois a caneta é errante
e o papel, terra de ninguém.
No transe da escrita
não respondo mais por mim...
Eis que tudo são vozes de outros tempos
e outros espaços,
de eus que me foram vedados,
de Deus ante a Criação.
No transe da escrita
transgrido-me
falseio-me
recrio-me
e rio-me
enquanto a poesia
me cascata em versos,
estrofes,
poema.

No transe da escrita, banho-me.
No tudo da escrita, nado-me.

A necessidade do não-tempo


Não posso com a correria dos dias: prefiro os que se cozinham em banho-maria aos que se atiram na panela de pressão. Preciso do tempo necessário para que se dispense a necessidade do tempo. Observar as nuvens, passear pela biblioteca, deitar a encarar o teto enquanto as últimas cenas vividas se me apresentam com um novo sentido. Registrar.

Fui feita para os registros e os registros exigem paciência. É só isso, contudo, que exigem.


O pote de ouro

 Deitar-se sobre arco-íris é para poucos. 
 É preciso ir ao topo, 
 onde o corpo se equilibra 
 e sente o gelado das cores 
 junto aos poros. 
 De costas para o mundo abaixo 
 sabe-se que a vida é curta 
 como é longa a queda 
 quando o arco se esvai. 
 Mas nada disso importa: 
 deitar-se sobre arco-íris é para poucos. 


O presságio das longarinas

Longarinas flutuam
entre palavras que acho bonitas
mas que não sei bem o que significam.
No barco da estética,
estendo a mão sobre ondas de poesia
cujo som ressoa nos cílios
de crianças semiadormecidas.
O ressonar das crianças é o ritmo das ondas.
As palavras que ainda não dizem
são o fundo obscuro deste oceano em que navego.

Um pássaro me sobrevoa cortando o céu e a estrofe.
Seria o pássaro uma longarina? 

Respiro fundo,
movendo a maré com menos destreza
do que os pequeninos.
Causo uma agitação que se revolta contra mim:
dez metros de poesia
me abocanham
me engolem
me digerem
devagar.

Volta o barco vazio à superfície;
meu corpo repousa em gozo
no fundo deste poço-mar.

(O eu-lírico se salva e chega à praia.
Seca-se ao sol.
Pensa sobre liberdade,
longarinas
e longas vidas etéreas.)

Violenta emoção

A ira dos deuses irrompeu às duas e meia e foi contra um sujeito que não se amava. Ele sentiu o golpe nas entranhas e bradou aos céus, por que eu. Os deuses, mais calmos, deram de ombros: sei lá, por que ele? Foi a emoção, alguém se lembrou de dizer, essas emoções violentas têm fins violentos. Houve risos constrangidos e consenso geral, mas o que fazer com aquele homem que continuava chorando e gritando por que eu por que eu por que eu. Porque você é especial — um mensageiro, enfastiado, sussurrou-lhe ao ouvido. O homem sorriu: ah. Então tá bom.

Reassunção

Foi uma renúncia delicada
desviar-lhe os olhos
quando os seus 'inda me iam fundos.
Ao cerrar os cílios
um milhão de pássaros
perpassou-me as pálpebras
com prenúncios vespertinos
e presságios de paz.
Os pássaros se aconchegaram rápido.
Eu sorrio quando os sinto ressonar,
e penso nos sofrimentos que se evitam
quando se escolhe sofrer homeopaticamente
no tempo e momentos certos.
A dor às vezes é calma e sábia
e até nos afaga...

(Numa manhã qualquer, :
foi-se embora, e sem café.
Junto aos pássaros.
Rumo ao passado.)

Vai

Tristeza bate na porta com um sorriso acabrunhado, meio "desculpa aparecer agora", meio "posso entrar?" Não pode, Tristeza me olha. Não pode! Tristeza suspira e entra mesmo assim. Senta na beira da cama como que na beira da ilha de um mar sem fim. Senta na beira da ilha como quem se concentra e se pergunta o gelado da água. Tristeza me olha nos olhos pedindo uma opinião. Dou de ombros — Vai fundo. Tristeza ergue as sobrancelhas com os olhos mais tristes do mundo — É sério? Dou de ombros outra vez. Tristeza arca a coluna e permanece onde está. Desvio o olhar. Queria uma outra cama, queria uma outra ilha... Quero ficar sozinha, minha filha! Tristeza treme dos lábios e pálpebras, Tristeza vai chorar. Eu lá quero essa culpa? Não quero, mas sinto culpada... Beijo-lhe o rosto. Ponho-lhe uma coberta nas costas e uns trocados em sua mão. Vai, vai comprar cigarro ou uma paçoca.

Nascimentos de Vênus


Atiro sementes ao ar — desejo-lhes prosperidade, o sedentarismo de um terreno fértil. Que vinguem, as que puderem. Demorou que eu aprendesse que a vida é probabilidade e estatística, que a arte e a magia são só os trajes com que lhes tapamos a nudez. Continuo a costurá-los, contudo.


Calma e una

Tenho caminhado rápido
e a desviar de buracos
que me surgiram no peito
e dos quais emergem gritos
de almas em agonia
Eu nem sabia que as almas
podiam gritar tão alto
e muito menos que um corpo
pudesse ter tantas almas
Tampouco sabia que o corpo
continha tantos infernos
Onde é que habitam os céus
e as almas que se salvaram?
As almas de lá não gritam
por isso não as encontro?
E onde me encontro eu?
Talvez eu deva gritar
mais alto que todas as almas
a ver se me tenho pista
a ver se me dou na vista
no meio do meu caminho...
Talvez eu deva gritar
mais alto que todas as almas
a ver se elas se calam
a ver se elas se juntam
e voltem, uma a uma,
a compor a minha alma
a qual eu pretendo calma
a qual eu pretendo una.

Terra Poetisa

Expulsos da República, os poetas vagaram por séculos, como o judeu errante. Para eles, no milk, no honey, no gold and glory on the way. Nas solas endurecidas dos pés, escreveram a sangue versos que ninguém leria. Choraram uns nos ombros dos outros, com a sensibilidade que — essa, ao menos — lhes era permitida. Até que chegaram à Pasárgada — não a Pasárgada dos persas nem a Pasárgada de Bandeira, mas uma Pasárgada terceira, meio Atlântida meio El Dorado, com a qual calharam de topar. Ali se estabeleceram, destronaram reis, descriaram leis, pariram crianças e poemas. Carpe diem. Uma vida doce, tão doce... Tão doce que enjoou. Toda aquela bonança. Toda aquela mesmice. Toda aquela arte sobre a arte e a arte é qual parte, destarte? Expulsaram-se da nova República. Outra vez Ahasverus, partiram em busca de ter sobre o que escrever. 

Cata-ventos d’ouro

Sim, os cata-ventos de ouro
se extinguiram
porque os acusaram de bagunçar ideias.
Eu não estava lá,
no fatídico dia
em que os arrancaram da terra.
Eu não estava lá,
mas de geração em geração
se transmitiu a tristeza
pela ausência dos vislumbres dourados
a sorrirem no vento.
Assim é que me dói,
me dói profundamente
saber que em nossa praça havia
um grande cata-vento dourado
que sorria,
dia após dia,
em nossos vendavais.
E pensar que foi derretido
e que do metal belíssimo
denteou-se a família inteira
do prefeito suposto ilustríssimo.
Eu conto tudo isso a Lúcia
— tão lúcida.
Ela me olha com desprezo
e diz que sou bagunçada das ideias.
Aí eu perco a paciência...
Já disse, Lúcia, já disse! 
O que bagunçavam as ideias eram os cata-ventos d’ouro,
e há tempos eles não existem mais.

Abarcar

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
apenas chegaram até meus pés
qual onda perversa que não convida,
mas atiça.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
das suas asas,
apenas um afago sutil
de quem consola prevendo o choro.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
cobriram-me como manta curta
que mais enfeita
do que esquenta.

(Vedou-se me contar com
mergulhos,
voos,
calor.)

Meus sonhos me abarcam por completo:
voltei a eles
como quem volta à própria casa
e se sente bem.

Abarco por completo os meus sonhos.



Descuido

O cachorro morreu de sede
num cesto
dentro do armário.
Quando o vi,
tal anjo que subiu aos céus,
arranquei-me os cabelos a pensar no meu descuido
— no que faço aos meus afetos
— na sede a que os relego
— por que é que os renego?

Por que é que sou assim?

Egoísta!
Não vão lágrimas
matar de sede nenhuma alma...

Mas talvez, quando eu acordar
a pensar sobre cestos, defuntos e Freud,
eu pense também sobre você
e sinta a mesma carência que matou o cão.

(E peça-lhe desculpas.)
(E peça-lhe que me mate a sede.)
(E peça-lhe que me ouça os sonhos.)

Nota sobre a perfeição


18 de novembro de 2018

Os dias têm sido compridos às vezes solitários sempre produtivos. Eu gosto e desgosto de como têm escorrido — o banho é parco, mas a água é morna e gentil à pele. Tenho me focado tanto em mim... De mente, de corpo, de alma: autoaperfeiçoamento constante. A perfeição é uma borboleta de voos altos e asas de vidro; persegui-la dos jeitos certos dá sentido à vida. Você entende? Não é sobre agarrá-la... É sobre questionar-lhe aos berros acerca da metamorfose. (É sobre aceitar a ausência de respostas: mais se aprende com os tropeços causados pelos olhos a mirar o céu.) 

Honra ao mérito


Certezas não duram mais do que a glória dos heróis. A queda é rápida e violenta, e dos ossos quebrados não se reconstituem verdades que fizeram sentido quando os governos eram outros. Dos ossos quebrados não se fazem nem exposições paleontológicas... (O lucro é parco e não cobre os gastos, e quem é que quer saber qualquer coisa de qualquer coisa que não diz coisa com coisa.) O que se pode fazer é ver se há cachorro disposto a lhes sugar algum tutano — se não, joga-se terra por cima. Limpa-se bem as mãos. Finge-se que nada aconteceu.

Na caixa abandonada

Na garagem se guarda a caixa
dos sonhos que não servem mais.

Não se doam sonhos,
nem se os descartam
nos caminhões que passam terça e quinta
às nove da manhã.
É preciso arranjar-lhes espaço
(em casas já tão apertadas)
assim que se apartam de nós.
É preciso enrolá-los em jornais velhos
— não porque se assemelhem a refugos de mudança
mas para que se distraiam com as notícias
do tempo em que tinham função.

(Além disso, distraídos, não ficam a nos chamar e a nos encher o saco.)

Depois se fecha a caixa.
Depois se guarda a caixa na garagem,
na prateleira mais alta,
tão longe da vista quanto possível for.
Depois se pensa nos ex-sonhos com carinho,
no tempo em que nos serviam,
e os imaginamos abandonados
na caixa abandonada
no canto abandonado.

Já leram as notícias todas.
De tédio, mataram-se uns aos outros
a amaldiçoar nosso nome
e os dêiticos dos jornais.

Nossos duplos


1. 

Ao eu que se duplica no espelho só falta alma. Seus sorrisos bem treinados têm desafiado os meus, tão sem jeito, e por detrás do fulgor dos seus olhos vejo ideias que nunca teriam me passado pelo pensamento.

2. 

A evolução dos nossos reflexos refletem nossa própria insensatez: é preciso que fiquemos, o tempo todo, atentos a essas superfícies que nos reproduzem. Não importa que nos chamem de egoístas, narcisistas, tresloucados; é preciso tomar conta dos nossos duplos... (Certificarmo-nos de que ainda são bons discípulos a nos imitarem em tudo.)

3. 

Não se pode dar a eles uma liberdade maior do que essa. Não se pode ter pena.

4. 

Eu digo isso a mim mesma diante do espelho e o que vejo é ela, que do espelho me vê, balançar a cabeça para lá e para cá, É tarde, meu bem, é tarde. 

5. 

Engulo em seco. Afasto-me do espelho e vou dormir com medo: não quero perder-me o lugar. 

Todo e qualquer espaço vazio


Você ouviu o tropel dos cachorros de madrugada? Eles estavam fugindo dos boatos das vizinhas loucas. Diziam que a Terra está se partindo de desgosto, que a rachadura é tão grande que é provável que, amanhã pela manhã, já ouçamos o crack de um ovo gigante. Cairemos lá dentro, enquanto a lava escorre pelas bordas. Os cachorros sempre foram mais espertos do que os homens, mas acho que nem eles vão se salvar, se os boatos se provarem certeiros. 

Você sabia que todo e qualquer espaço vazio na galáxia já foi, um dia, ocupado por um planeta que se suicidou? 

Dias malévolos

Dias malévolos espreitam os sonhos dos que só temem.
Trovões reboam por detrás das colinas
provando que nem as colinas são seguras
e que na hora da fuga
é cada um por si.
Coma bem, meu bem, e se exercite...
Os não saudáveis 
serão os primeiros a queimar no inferno
porque estarão fora de forma 
— disse a nutricionista sorridente
com a qual José sonhou.
José teme Eduarda porque Eduarda é bela,
e teme ficar a sós com o chefe
e não ter o que dizer.
José teme aranhas e buracos profundos,
José teme que os dias não mudem
mas também teme que mudem.
José teme trovões barulhentos
a lembrarem-lhe de que o fim está próximo
e ele ainda nem começou a academia
porque tem medo de não gostar.
José tem certeza
de que quando os demônios estiverem soltos
ele será o primeiro a ser pego,
é sempre assim,
ele vai tentar correr
mas vai cair,
e o demônio vai lhe dizer
E agora, José? E agora?

“E agora?”, pensa José.

Mais um gole do café,
e se prepara para um dia longo e malévolo
em que ficará a sós com o chefe.

Delusório


Frases de efeito ecoam em casas abandonadas.
Espectros que por ali passeiam
treinam em frente ao espelho
qual o melhor jeito
de dizer que está tudo bem, está tudo bem.
"Está tudo bem" nunca convence, nem quando é verdade...
É preciso a dissimulação perfeita
— a qual só se atinge
quando o tempo para ensaios é eterno.
É por isso que os espectros mentem tão bem.
É por isso que você acredita
até quando insistem em dizer que existem:
basta uma frase de efeito, e está tudo bem.

Ainda não sabemos

1. 

Ao inferno os vizinhos que fingem não ter vizinhos. 

2. 

Subestimar o sono alheio não é sensato, nem o é chegar atrasado e desconsiderar que no mercado dos tempos o tempo do outro vale o mesmo que o seu. (É menos sensato ainda encher os bolsos a relevar que os bolsos têm limites e as barragens não são limites, mas os têm também.) 

3. 

Aprendemos a bater cartão e a tolerar algumas injustiças, mas ainda não sabemos nadar em lama. 

4. 

Como é que você se sente quando, ao enfiar as mãos nos bolsos, as retira pegajosas e marrons? 

5. 

Aprendemos a bater cartão e a tolerar algumas injustiças. Você desaprendeu a sentir? 

Promessa póstuma

Ondas de calor
sufocaram
sentimentos em muda.
Caminhando ao poente,
vejo os cadáveres tênues
apodrecendo tensos
e dizendo
Desculpe-nos 
por ainda estarmos aqui. 
Logo nos decomporemos por completo, 
adubaremos seu peito 
para que se componham versos. 
Ouço os lamentos fantasmagóricos
como quem ouve a Terra girar sobre o próprio eixo,
como quem ouve o farfalhar das nuvens
e as montanhas quando se deitam para descansar.
Ouço como se ouve tudo
o que não se ouve
— porque não há.


 Mas sinto os brotos dos versos 
 quando chego em casa;
 cumpre-se a promessa dos fantasmas.

Um pião mágico

Até as cores do dia já estavam indo embora. De criança na casa do Guga, só ele, a Nicia e o próprio Guga, mas o amigo estava se trocando para dar uma volta de moto com o padrinho e a Nicia era chata. Sentadinho ali no chão da varanda, via o céu contra os telhados da cidade e as luzes dos postes que já iam se acendendo. Pelo rabo do olho eram as pernas das mulheres para lá e para cá, a carregarem formas e abanarem toalhas e catarem lixo e pisotearem copinhos de plástico. Vez ou outra uma bexiga sobrevivente estourava entre risadas de velhas bobas, tirando-o de seus devaneios. De vez em quando também vinha a mãe do Guga a oferecer-lhe mais bolo ou mais refrigerante, ou a ver se ele queria brincar com algum dos brinquedos novos do filho. 
— Já, já sua mãe chega pra te pegar, enquanto isso vou ver se acho a Nicia pra te fazer companhia. 
Mas não queria a Nicia... Talvez não quisesse nem a mãe. Estava agoniado. Não era certo criança ficar agoniada, mas estava. Cansaram-lhe as correrias da tarde, enjoava-o o gosto de açúcar que lhe ficara na boca. Irritava-o o Guga ficar tão metido perto do padrinho, e a Nicia ter rido dos seus sapatos, e as velhas sempre tão solícitas a terem pena dele e a cochicharem entre si, como se ele fosse tão burro que não percebesse que falavam da mãe. Que a mãe dele isso. Que a mãe dele aquilo. Que estava namorando de novo e fazendo dois turnos direto e isso e aquilo. Podiam tanto calar a boca. 
Sentiu que alguém se aproximava outra vez. Só que, dessa vez, o rosto era-lhe desconhecido... Enrugado, grisalho, os lábios repuxados num sorriso bondoso. O velho primeiro largara a bengala desbotada no chão, depois se sentara ao seu lado com grande dificuldade. Foi possível ouvir um resmungo brincalhão antes que, com grande suspense, começasse a tirar algo do bolso. 
— Você já viu um pião? 
O menino balançou a cabeça num sinal negativo, os olhos arregalados de espanto e curiosidade. 
— Aqui. Um pião. Só que esse é mágico. 
Colocou no chão um objeto colorido e este, sem que fosse preciso o impulso de um barbante desenrolado, começou a girar em grande velocidade sobre o próprio eixo. 
Naquele redemoinho fascinante, o garoto pôde jurar que era para ali que as cores do dia tinham ido. Azul, roxo, rosa, dourado. Os tons se alternavam ante seus olhos cheios de admiração, e parecia que fazia anos desde que o brinquedo começara a se mover. 
Em algum momento, acabou cochilando. Quando lhe chacoalharam o ombro, perguntou assustado: 
— Cadê o velho? Cadê o pião? 
Que velho? Que pião? 
As explicações foram inúteis. 
— Não tem velho aqui, menino, e o pião cê deve ter deixado cair no meio da rua. 
Ele disse que tinha velho sim, que sentou do meu lado e tinha um pião mágico, eu vi, eu vi! 
As mulheres se entreolharam, divertidas. Estava na cara que achavam que ele tinha sonhado, ou que estivesse delirando. Não tinham noção do que a experiência, tão vívida, representara para ele. Em sua insensibilidade, alguém até sentenciou a causa do mal: 
— Sabe o que é isso aí? Brigadeiro demais. 

Abrigo

É um processo lento o adaptar-se
ao novo lar que é si mesmo
quando a reforma não foi planejada
mas dada de mão beijada
— e não por um programa de auditório
(que bate na porta às três da tarde
com a multidão gritando aêêê)
mas por aquilo que,
sorrindo,
o pedreiro chamou Destino.
Então foi isso, Destino.
Assim atino
quando me admiro de dentro pra fora
a olhar essa parede nova
que ainda cheira a tinta
e dá até medo de tocar
— vai que meus dedos
deixam marcas
e o Destino
vem me visitar
e olha o tamanho do estrago
e pensa, desesperado,
Por que é que eu perco tempo 
agradando essa menina 
e começa a quebrar a parede
marretada após marretada
(Por quê? Por quê? Por quê?)
e eu do lado embasbacada
olhando sem fazer nada
o Destino acabar comigo
ao destruir-me o abrigo.

Enfim.
É melhor não deixar marcas.
É melhor tomar cuidado com o piso novo também.
É melhor parar de tropeçar
nesse sofá
que me colocaram no meio da sala de ser-estar.
É melhor me acostumar
que tudo esteja tão mudado
graças ao presente que me foi dado
e ao presente que já é passado.

Mas, ah... 
É um processo lento o adaptar-se!

O bom aventureiro


A caneta começa despretensiosa ou assim é que pretende. Que finge. Há uma ideia na manga? Há um caminho escolhido? O mapa foi entregue por um sujeito que surgiu à noite, a capa a cobrir-lhe a cara. O mapa estava na manga. Passou das mãos enluvadas às que segurariam a caneta, e então o sujeito misterioso sumiu. (Antes colocou o indicador sob os lábios como quem pede silêncio. Como é que se silenciam as ideias. Como é que se ouvem as ideias.) O mapa foi aberto e estava em branco, ou isso foi o que pareceu. Agora a caneta corre sobre o papel vazio. Agora a caneta percorre a geografia inexistente de terras a se descobrir. Conexões cerebrais, uma sugestão que leva a outra que leva a outra. Nem tudo se aproveita; alguns atalhos são emboscadas. Mas o bom aventureiro persiste, a despeito dos espinhos que lhe cortam o rosto nos matos muito fechados e de escuridão tão densa que sufoca. A caneta vai cortando os espinhos. A caneta vai cortando caminho, e ilumina os passos que tentam chegar ao ponto. Mas sempre há outro ponto. E mais mais um ponto. O ponto final é só uma pausa merecida, um encostar no tronco de uma árvore e tomar um gole da garrafa. Um olhar para o céu a ver se há estrelas. Um lembrar de que não importa quão denso seja o breu, as estrelas sempre estão lá.

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