Abrigo

É um processo lento o adaptar-se
ao novo lar que é si mesmo
quando a reforma não foi planejada
mas dada de mão beijada
— e não por um programa de auditório
(que bate na porta às três da tarde
com a multidão gritando aêêê)
mas por aquilo que,
sorrindo,
o pedreiro chamou Destino.
Então foi isso, Destino.
Assim atino
quando me admiro de dentro pra fora
a olhar essa parede nova
que ainda cheira a tinta
e dá até medo de tocar
— vai que meus dedos
deixam marcas
e o Destino
vem me visitar
e olha o tamanho do estrago
e pensa, desesperado,
Por que é que eu perco tempo 
agradando essa menina 
e começa a quebrar a parede
marretada após marretada
(Por quê? Por quê? Por quê?)
e eu do lado embasbacada
olhando sem fazer nada
o Destino acabar comigo
ao destruir-me o abrigo.

Enfim.
É melhor não deixar marcas.
É melhor tomar cuidado com o piso novo também.
É melhor parar de tropeçar
nesse sofá
que me colocaram no meio da sala de ser-estar.
É melhor me acostumar
que tudo esteja tão mudado
graças ao presente que me foi dado
e ao presente que já é passado.

Mas, ah... 
É um processo lento o adaptar-se!

O bom aventureiro


A caneta começa despretensiosa ou assim é que pretende. Que finge. Há uma ideia na manga? Há um caminho escolhido? O mapa foi entregue por um sujeito que surgiu à noite, a capa a cobrir-lhe a cara. O mapa estava na manga. Passou das mãos enluvadas às que segurariam a caneta, e então o sujeito misterioso sumiu. (Antes colocou o indicador sob os lábios como quem pede silêncio. Como é que se silenciam as ideias. Como é que se ouvem as ideias.) O mapa foi aberto e estava em branco, ou isso foi o que pareceu. Agora a caneta corre sobre o papel vazio. Agora a caneta percorre a geografia inexistente de terras a se descobrir. Conexões cerebrais, uma sugestão que leva a outra que leva a outra. Nem tudo se aproveita; alguns atalhos são emboscadas. Mas o bom aventureiro persiste, a despeito dos espinhos que lhe cortam o rosto nos matos muito fechados e de escuridão tão densa que sufoca. A caneta vai cortando os espinhos. A caneta vai cortando caminho, e ilumina os passos que tentam chegar ao ponto. Mas sempre há outro ponto. E mais mais um ponto. O ponto final é só uma pausa merecida, um encostar no tronco de uma árvore e tomar um gole da garrafa. Um olhar para o céu a ver se há estrelas. Um lembrar de que não importa quão denso seja o breu, as estrelas sempre estão lá.

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