O céu só vem depois

 Opa! Maria das Virtudes? 

 Eu mesma. 

 Jacinto. 

A recepção era uma garagem adaptada na qual mal entrava luz. O sofá azul, à esquerda, vomitava partes do estofamento pelos rasgos do tecido. Um cesto se encontrava ao lado, com alguns jornais velhos e um trabalho de tricô que alguém esquecera lá, agulhas e tudo. Havia, é claro, um relógio tiquetaqueando o tempo perdido, e havia a escrivaninha vazia. Enquanto esperava, até imaginava que lhe seria relegada a função de secretária... Imaginava-se de batom cor-de-rosa e saia cinzenta e meias-calças para esconder as varizes e as unhas impecavelmente pintadas quando fora interrompida. Mãos sujas, corpo atarracado, Jacinto mais se assemelhava a um peão do que a um recepcionista ou aos profissionais de RH sobre os quais a filha lhe alertara. 

Estendeu-lhe a destra pensando no álcool em gel que trazia na bolsa. Arrependeu-se de súbito da recordação: não era gentil. Ademais, na última missa, o padre falara tanto sobre a humildade... E depois, em conversa íntima, aconselhara: nada de escolher muito, minha amiga... Só mais cinco anos para a aposentadoria. Qualquer trabalho honesto é um trabalho honesto. Coragem, que o céu só vem depois da provação. 

Apertara efusivamente a mão do padre. 

Apertou efusivamente a mão de Jacinto, sorrindo como quem quer mostrar a pureza da própria alma. Em seguida, perguntou-lhe pelo chefe. Como resposta, a surpresa: 

 Nada de chefes. No escuro, somos todos iguais. Me acompanhe. 

Das Virtudes atravessou a porta junto ao seu guia. Cuidou que veria luz depois da garagem-sala porcamente iluminada, mas o corredor que se mostrou a ela conduzia a um breu cada vez mais breu. 

Estancou. Jacinto olhou para trás, a expressão bondosa de não-tenhais-medo. Não tenhais medo, filhos, dissera o padre erguendo a voz. O fiel ao lado dela no banco acordara sobressaltado e ela achara graça. O pobre coitado parecia não saber onde estava, e os olhos de tantos santos a lhe julgarem a falta, e o padre agora com a voz mais mansa, Não tenhais medo porque quem crê não tem o que temer. 

Não há nada a temer. Voltou a andar, Jacinto à sua frente. Tranquilizava-se em pensamento: o anúncio do emprego fora feito no jornal, o jornal não ia anunciar nada que fosse perigoso... E a Lúcia sabe onde é que eu tô. Não tem perigo. 

Outra porta se abriu, e esta dava para trevas sem fim. 

  Tem uma escada que desce lá embaixo. Mais estreitinha, mas os degrau em si é largo e tem parede dos dois lado pra se apoiar. Não tem muito como cair, mas se cair a queda é pequena, não dá nem pra machucar, pode ficar tranquila. Sei que na idade da senhora qualquer tombinho é meio arriscado, mas eu vou tá bem na frente, qualquer coisa a senhora segura em mim. 

O mal-estar lhe subia pela garganta. Não tenhais medo. Mas e isso agora? Mas e a luz, homem de Deus? 

 E a luz? 

 Ah, depois de um tempo a gente se acostuma sem ela... Prioridades, né? Ou ficava sem luz ou demitia funcionário. Ninguém tava a fim de ir embora, sabe lá o que ia conseguir depois, né... 

 Mas alguém foi, né?  Das Virtudes deu uma risadinha curta.  Pra ter vagado lugar pra mim. 

 Foi, mas foi daqui pra outro plano  Jacinto riu de volta.  A Cleide tava com uma tosse esquisita fazia tempo, coitada, daí semana passada partiu de vez. 

Engoliu em seco. Não tenhais medo. Não tenhais medo. Não tenhais medo. 

Os saltinhos seguiram Jacinto com cautela escada abaixo. As mãos se orientavam pelas paredes, e sentiram quando estas se tornaram rudes e esfarelentas ao contato. O chão também era áspero, fazendo um som de lixa quando as solas passavam por ele. 

Das Virtudes sentiu uma mão a lhe agarrar o pulso; julgou que fosse de Jacinto, mas logo uma voz feminina se fez soar em seu ouvido: 

 Bem-vinda. Me segue que eu vou mostrar a fábrica pro cê. 

A mulher a conduzia rápido, os pés acostumados a desconsiderar que os seus eram velhos na idade e novos ali. Quis protestar-lhe, mas um estranho constrangimento a oprimia: sentia que, mesmo na escuridão, incontáveis cabeças se viravam para ela. 

 Aqui, ó  a funcionária puxou-lhe a mão, fazendo-a tocar numa espécie de mesa.  Aqui é onde chega o maiamê. 

 Maia o quê? 

 Não é "maioquê", é "maiamê". Ele chega aqui já pronto pro preparo, ó. 

Afundou a mão de Das Virtudes no que pareceu um balde cheio de... lama? Barro? Cheirava à terra. A textura era pegajosa e consistente, mas suave ao toque. 

 Que que é “maiamê”?  tentou outra vez. 

 Cocô de zorôva da serra. Eles têm um criadouro aqui perto, produz uma cocozada que é uma beleza. Acho que os bicho gosta do clima daqui. Lá de onde eu venho quase não tem zorôva, só vi uma quando eu era criança, na casa do vizinho. 

 Mas... 

 Aqui, ó... Me dá sua outra mão. Isso. Aqui nessa parte do balcão é onde a senhora vai abrir o maiamê. O rolo tá pendurado bem atrás da tua cabeça. Eu não vou ensinar agora porque meu tempo tá curto, mas é bem fácil, é tipo abrir pão. A senhora já abriu massa de pão? Mesma coisa. Pega uma mãozada do maiamê, põe aqui no balcão, faz uma bola e vai abrindo. Não precisa untar nem nada, parece que o maiamê vai grudar na mão da gente mas não gruda não, a senhora vai ver. Daí, cada vez que a senhora abrir o maiamê bem fininho, vai rodar essa manivela aqui embaixo, óia. Isso. Aí. Cuidado com esse negócio, viu, a menina que trabalhava aí vivia dando topada com ele. Aí a senhora vai rodar umas três vez até ouvir um estalo. O estalo indica que a esteira chegou até o ponto que precisava chegar. 

 E depois? 

 Depois a senhora pega outra porção do maiamê e faz a mesma coisa. Uma bola. Abre. Deixa fininho. Roda a manivela. Só isso! 

 Mas... 

 A senhora quer saber o que acontece nos outro ponto da esteira? Depois é com os artesão, né... Vão cortar a massa, depois colocar no molde, secar... Lá na frente tem os menino que faz a decoração, depois os outro que pinta... Mais pro finzinho vão impermeabilizar, pôr na secagem de novo e depois é despachar pra seção de empacotamento. Mas a senhora só vai ter que preocupar com essa parte que eu mostrei mesmo... E agora vou correr de volta pro meu serviço porque já deve ter chegado mais maiamê pra preparar. Eu fico uns dez passo ali pra esquerda, mas se a senhora precisar de qualquer ajuda, pode gritar que qualquer um vem ajudar com a maior boa vontade. O escuro é engraçado porque sempre tem alguém mais perto do que a gente imagina. 

Dizendo isso, afastou-se, mas a última fala ficou ecoando na cabeça de Das Virtudes. Sempre tem alguém mais perto do que a gente imagina. Julgou sentir uma respiração no seu pescoço, o que a fez dar um pulo para trás e um gritinho sufocado. Não, ninguém ali, mas um riso não muito distante provava que alguém lhe vira humor. Outro som, bem mais próximo, indicava que novo balde de maiamê fora depositado sobre a mesa. O serviço se acumulava... Era preciso começar. 

Não tenhais medo. Não tenhais medo. 

Começou meio enojada, Eu merecia isso, meu Deus. Não sejais ingratos. Não se lembrava exatamente se o padre tinha dito isso, mas conseguia imaginar o sermão, Não sejais ingratos, no mesmo tom do Não tenhais medo. As mãos já tinham catado um punhado de maiamê de dentro do balde quando pensou alto, Será que não precisa de luva pra mexer nisso aqui. 

 Tem um par de luva bem atrás da senhora,  uma voz masculina respondeu ali perto  só que tá meio sujo. Era da Cleide, coitada... Mas não acho que tem perigo de infectar a senhora não. A tosse da Cleide tava estranha mas não passou pra ninguém daqui não. 

Como que para contradizer o colega, alguém, lá do outro lado, teve um acesso de tosse. 

Já sujara as mãos mesmo, melhor continuar trabalhando sem luvas. 

Enquanto pensava em quão estranho era que não tivesse precisado se uniformizar, tampouco usar um mero avental, lembrou-se de que ainda tinha a bolsa junto de si. Dentro dela, a vela benta que sempre trazia consigo. Será...? Não, seria um sacrilégio. E faltava-lhe o isqueiro, de qualquer forma. Mas será que ia ser um pecado tão grande assim? Vou acender a vela pra Cleide, acertou com a própria consciência, daí não vai ser tão mau. 

 Escuta... Tem problema se eu acender uma vela aqui?  perguntou para qualquer abençoado invisível que lhe respondesse. 

 Tem problema não. Vela aqui não dura nada, mas se a senhora quiser, fica à vontade. 

 E você tem fogo? 

 Deus me livre do fogo, muié! - riu consigo mesmo - Brincadeira. Eu num tenho não, mas o Cumpadi Tonho deve ter. Aô, Tonho! Chega aqui um cadinho. Risca um fósqui aqui pra novata. 

Das Virtudes não ouviu a resposta nem o som dos passos se aproximando, mas, num átimo, uma chama fora acesa à sua frente. 

 Obrig...

Senhor da Glória! 

Diante de uns olhos totalmente brancos, o susto fora enorme. Quis recompor-se da postura pouco adequada, quis sorrir e agradecer direito... 

Mas aquele único fósforo iluminava tudo. Os mesmos glóbulos descorados diante dela estampavam todos os rostos cansados que se viravam em sua direção. Alguns sorriam benevolentes, mas... Mas... As peles tão claras, tão flácidas... A ausência de cabelo... A ausência de roupa! 

Não tenhais medo, o coração disparado. Não tenhais medo, uma gota fria de suor descendo-lhe pela espinha. 

Aproveitou-se do clarão e pôs-se a correr, sem bolsa nem nada. Sentia que a luz ia se apagar, que iam lhe perseguir... E todos tão tranquilos! Encaravam-na com... Com piedade? 

No meio da correria - não tão rápida, que os pés não davam para nada  julgou ver, lá no fim da fábrica-depósito, espécies de manequins. Sem tirar os olhos brancos de cima dela, dois artesãos encaixavam um pé modelado numa perna sem corpo, e outra artesã, na mesma curiosidade muda que lhe era direcionada, talhava o que lhe parecia uma orelha. 

Chegou à escada com o peito explodindo, ainda assim se esforçou a subir. Só mais um degrau. Só mais um degrau. 

No topo, meteu a mão na maçaneta da porta. Trancada. Tentou outra vez, forçou-a, macetou-a, tentou puxá-la... 

 Quanto tempo para a aposentadoria da senhora?  alguém gritou lá de baixo ao mesmo tempo em que a claridade, enfim, se exauria. 

O peito doído, as pernas doídas, os pés... Num choro que começou baixinho, foi se deixando perder as forças, dobrando-se até que o traseiro encontrasse chão onde se sentar. 

 Cinco anos  acabou respondendo, meio engasgada. 

Do escuro, a voz foi amigável e tão consoladora quanto conseguiu: 

 Ih, passa rápido... Passa rápido, a senhora vai ver. 

Quase conseguia ver os sorrisos encorajadores, e houve um pequeno silêncio solidário. Então, o som de movimentação indicou que todos voltavam às suas tarefas. 

6 comentários:

  1. Sempre fantástica! ♥. Você é uma verdadeira artista Lari. Fiquei um pouco perturbado, confesso. Mas acredito que tenha sido o seu desejo ao projetar essa descoberta simultânea da realidade entre nós e a Virtudes.

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    1. Obrigadíssima, Elcimar! Visita sempre linda ♡

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  2. Meu Deus! Eu acabei de conhecer seu espacinho e estou apaixonada pela sua escrita!
    Esse conto me deixou cada vez mais curiosa no desenrolar da história e a medida que eu ia lendo ele me prendia ainda mais.
    Devo confessar que fiquei um pouco em choque com a história hahaha

    Um abraço ♥ com certeza irei voltar aqui mais vezes!
    baudogirassol.blogspot.com

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    1. Aaaah, tão bom saber isso ♥♥♥

      Muito obrigada, Jú! Vai ser sempre ótimo vê-la por aqui!

      Abraço enorme!

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  3. Sempre me surpreendo com os assuntos que trazes, Lari! Não sei porquê, talvez por não estar habituada a ler. Mas não deixo de amar. O modo como tu escreve, detalhadamente, montando uma imagem clara na cabeça de nós leitores é uma grande inspiração pra mim. Tenho tentado escrever e descrever melhor, e eis um dos grandes motivos. Obrigada pelas palavras, sempre me tocam!

    <3

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    1. As palavras mais gratificantes e motivadoras que li nesta semana ♡

      Eu que te agradeço, e muito!

      Tenha um fim de semana lindo, Lari ♡♡

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