Dias malévolos

Dias malévolos espreitam os sonhos dos que só temem.
Trovões reboam por detrás das colinas
provando que nem as colinas são seguras
e que na hora da fuga
é cada um por si.
Coma bem, meu bem, e se exercite...
Os não saudáveis 
serão os primeiros a queimar no inferno
porque estarão fora de forma 
— disse a nutricionista sorridente
com a qual José sonhou.
José teme Eduarda porque Eduarda é bela,
e teme ficar a sós com o chefe
e não ter o que dizer.
José teme aranhas e buracos profundos,
José teme que os dias não mudem
mas também teme que mudem.
José teme trovões barulhentos
a lembrarem-lhe de que o fim está próximo
e ele ainda nem começou a academia
porque tem medo de não gostar.
José tem certeza
de que quando os demônios estiverem soltos
ele será o primeiro a ser pego,
é sempre assim,
ele vai tentar correr
mas vai cair,
e o demônio vai lhe dizer
E agora, José? E agora?

“E agora?”, pensa José.

Mais um gole do café,
e se prepara para um dia longo e malévolo
em que ficará a sós com o chefe.

Delusório


Frases de efeito ecoam em casas abandonadas.
Espectros que por ali passeiam
treinam em frente ao espelho
qual o melhor jeito
de dizer que está tudo bem, está tudo bem.
"Está tudo bem" nunca convence, nem quando é verdade...
É preciso a dissimulação perfeita
— a qual só se atinge
quando o tempo para ensaios é eterno.
É por isso que os espectros mentem tão bem.
É por isso que você acredita
até quando insistem em dizer que existem:
basta uma frase de efeito, e está tudo bem.

Ainda não sabemos

1. 

Ao inferno os vizinhos que fingem não ter vizinhos. 

2. 

Subestimar o sono alheio não é sensato, nem o é chegar atrasado e desconsiderar que no mercado dos tempos o tempo do outro vale o mesmo que o seu. (É menos sensato ainda encher os bolsos a relevar que os bolsos têm limites e as barragens não são limites, mas os têm também.) 

3. 

Aprendemos a bater cartão e a tolerar algumas injustiças, mas ainda não sabemos nadar em lama. 

4. 

Como é que você se sente quando, ao enfiar as mãos nos bolsos, as retira pegajosas e marrons? 

5. 

Aprendemos a bater cartão e a tolerar algumas injustiças. Você desaprendeu a sentir? 

Promessa póstuma

Ondas de calor
sufocaram
sentimentos em muda.
Caminhando ao poente,
vejo os cadáveres tênues
apodrecendo tensos
e dizendo
Desculpe-nos 
por ainda estarmos aqui. 
Logo nos decomporemos por completo, 
adubaremos seu peito 
para que se componham versos. 
Ouço os lamentos fantasmagóricos
como quem ouve a Terra girar sobre o próprio eixo,
como quem ouve o farfalhar das nuvens
e as montanhas quando se deitam para descansar.
Ouço como se ouve tudo
o que não se ouve
— porque não há.


 Mas sinto os brotos dos versos 
 quando chego em casa;
 cumpre-se a promessa dos fantasmas.

Um pião mágico

Até as cores do dia já estavam indo embora. De criança na casa do Guga, só ele, a Nicia e o próprio Guga, mas o amigo estava se trocando para dar uma volta de moto com o padrinho e a Nicia era chata. Sentadinho ali no chão da varanda, via o céu contra os telhados da cidade e as luzes dos postes que já iam se acendendo. Pelo rabo do olho eram as pernas das mulheres para lá e para cá, a carregarem formas e abanarem toalhas e catarem lixo e pisotearem copinhos de plástico. Vez ou outra uma bexiga sobrevivente estourava entre risadas de velhas bobas, tirando-o de seus devaneios. De vez em quando também vinha a mãe do Guga a oferecer-lhe mais bolo ou mais refrigerante, ou a ver se ele queria brincar com algum dos brinquedos novos do filho. 
— Já, já sua mãe chega pra te pegar, enquanto isso vou ver se acho a Nicia pra te fazer companhia. 
Mas não queria a Nicia... Talvez não quisesse nem a mãe. Estava agoniado. Não era certo criança ficar agoniada, mas estava. Cansaram-lhe as correrias da tarde, enjoava-o o gosto de açúcar que lhe ficara na boca. Irritava-o o Guga ficar tão metido perto do padrinho, e a Nicia ter rido dos seus sapatos, e as velhas sempre tão solícitas a terem pena dele e a cochicharem entre si, como se ele fosse tão burro que não percebesse que falavam da mãe. Que a mãe dele isso. Que a mãe dele aquilo. Que estava namorando de novo e fazendo dois turnos direto e isso e aquilo. Podiam tanto calar a boca. 
Sentiu que alguém se aproximava outra vez. Só que, dessa vez, o rosto era-lhe desconhecido... Enrugado, grisalho, os lábios repuxados num sorriso bondoso. O velho primeiro largara a bengala desbotada no chão, depois se sentara ao seu lado com grande dificuldade. Foi possível ouvir um resmungo brincalhão antes que, com grande suspense, começasse a tirar algo do bolso. 
— Você já viu um pião? 
O menino balançou a cabeça num sinal negativo, os olhos arregalados de espanto e curiosidade. 
— Aqui. Um pião. Só que esse é mágico. 
Colocou no chão um objeto colorido e este, sem que fosse preciso o impulso de um barbante desenrolado, começou a girar em grande velocidade sobre o próprio eixo. 
Naquele redemoinho fascinante, o garoto pôde jurar que era para ali que as cores do dia tinham ido. Azul, roxo, rosa, dourado. Os tons se alternavam ante seus olhos cheios de admiração, e parecia que fazia anos desde que o brinquedo começara a se mover. 
Em algum momento, acabou cochilando. Quando lhe chacoalharam o ombro, perguntou assustado: 
— Cadê o velho? Cadê o pião? 
Que velho? Que pião? 
As explicações foram inúteis. 
— Não tem velho aqui, menino, e o pião cê deve ter deixado cair no meio da rua. 
Ele disse que tinha velho sim, que sentou do meu lado e tinha um pião mágico, eu vi, eu vi! 
As mulheres se entreolharam, divertidas. Estava na cara que achavam que ele tinha sonhado, ou que estivesse delirando. Não tinham noção do que a experiência, tão vívida, representara para ele. Em sua insensibilidade, alguém até sentenciou a causa do mal: 
— Sabe o que é isso aí? Brigadeiro demais. 

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