Um pião mágico

Até as cores do dia já estavam indo embora. De criança na casa do Guga, só ele, a Nicia e o próprio Guga, mas o amigo estava se trocando para dar uma volta de moto com o padrinho e a Nicia era chata. Sentadinho ali no chão da varanda, via o céu contra os telhados da cidade e as luzes dos postes que já iam se acendendo. Pelo rabo do olho eram as pernas das mulheres para lá e para cá, a carregarem formas e abanarem toalhas e catarem lixo e pisotearem copinhos de plástico. Vez ou outra uma bexiga sobrevivente estourava entre risadas de velhas bobas, tirando-o de seus devaneios. De vez em quando também vinha a mãe do Guga a lhe oferecer mais bolo ou mais refrigerante, ou a ver se ele queria brincar com algum dos brinquedos novos do filho. 

— Já, já sua mãe chega pra te pegar, enquanto isso vou ver se acho a Nicia pra te fazer companhia. 

Mas não queria a Nicia... Talvez não quisesse nem a mãe. Estava agoniado. Não era certo criança ficar agoniada, mas estava. Cansaram-lhe as correrias da tarde, enjoava-lhe o gosto de açúcar que lhe ficara na boca. Irritava-lhe o Guga ficar tão metido perto do padrinho, e a Nicia ter rido dos sapatos dele, e as velhas sempre tão solícitas a lhe terem pena e a cochicharem entre si, como se ele fosse tão burro que não percebesse que falavam da mãe. Que a mãe dele isso. Que a mãe dele aquilo. Que estava namorando de novo e fazendo dois turnos direto e isso e aquilo. Podiam tanto calar a boca. 

Sentiu que alguém se aproximava outra vez. Só que, dessa vez, o rosto lhe era desconhecido... Enrugado, grisalho, os lábios repuxados num sorriso bondoso. O velho primeiro largara a bengala desbotada no chão, depois se sentara ao seu lado com grande dificuldade. Foi possível ouvir um resmungo brincalhão antes que, com grande suspense, começasse a tirar algo do bolso. 

— Você já viu um pião? 

O menino balançou a cabeça num sinal negativo, os olhos arregalados de espanto e curiosidade. 

— Aqui. Um pião. Só que esse é mágico. 

Colocou no chão um objeto colorido e este, sem que fosse preciso o impulso de um barbante desenrolado, começou a girar em grande velocidade sobre o próprio eixo. 

Naquele redemoinho fascinante, o garoto pôde jurar que era para ali que as cores do dia tinham ido. Azul, roxo, rosa, dourado. Os tons se alternavam ante seus olhos cheios de admiração, e parecia que fazia anos desde que o brinquedo começara a se mover. 

Em algum momento, acabou cochilando. Quando lhe chacoalharam o ombro, perguntou assustado: 

— Cadê o velho? Cadê o pião? 

Que velho? Que pião? 

As explicações foram inúteis. 

— Não tem velho aqui, menino, e o pião cê deve ter deixado cair no meio da rua. 

Ele disse que tinha velho sim, que sentou do meu lado e tinha um pião mágico, eu vi, eu vi! 

As mulheres se entreolharam, divertidas. Estava na cara que achavam que ele tinha sonhado, ou que estivesse delirando. Não tinham noção do que a experiência, tão vívida, representara para ele. Em sua insensibilidade, alguém até sentenciou a causa do mal: 

— Sabe o que é isso aí? Brigadeiro demais. 

8 comentários:

  1. Tadinho do menino :( hauhua desacreditado.
    Tenho vários flashes da infância em que coisas assim aconteceram e mais ninguém viu, é tão mágico

    Com amor, ♥ Bruna Morgan

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    1. Na infância os olhos são outros, né? Tudo parece mágico!

      Obrigada pela visita, Bruna ♥♥

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  2. Tuas histórias sempre nos fazendo imaginar como teria sido o começo, como poderia continuar. Adoro isso. Abraços!

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  3. Que conto lindo! Eu fico apaixonada quando vejo escritas tão boas pela blogosfera, continue escrevendo tão lindamente e compartilhando com a gente. Não conhecia o seu espaço, mas já comecei a seguir e espero voltar aqui mais vezes.
    Beijos, espelho do Reino <3

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    1. Muito obrigada mesmo, Erika! Sinta-se sempre bem-vinda aqui 💗

      Beijos, e uma quarta-feira linda para você!

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  4. Existia pião sim!!!

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