Personagem

Ele não se importava tanto com que não estivéssemos juntos, desde que eu também não estivesse com nenhum outro cara. Eu devia me pôr no meu lugar, ficar quietinha, não fazer nada que ele considerasse “coisa de puta”. Não era minucioso assim com as outras mulheres com quem saía... A exigência era comigo. Não suportava o término do nosso relacionamento e não queria que eu estragasse a imagem que tinha de mim. 

Nos dois primeiros meses tentei não ficar preocupada com isso. No fundo ele é um cara legal, não é? Só está passando por uma fase ruim. É claro que, por meio de conhecidos, eu ouvia boatos que não me eram nada agradáveis... Ao passo que ele não queria que eu manchasse minha imagem, ele manchava meu nome. Narrava casos que nunca aconteceram, espalhava segredos que um dia me prometera guardar, fazia de um tudo para provar para sua plateia que era o bom moço da história. Eu ouvia as fofocas que me diziam respeito com os olhos cheios de lágrimas, mas continuava dizendo a mim mesma: Ele vai perceber logo que está agindo mal. Ele vai se arrepender e parar com isso. 

Depois de três meses comecei a ficar com medo: ele parecia estar sempre nos mesmos lugares que eu. Ou o mundo era mesmo muito pequeno ou ele estava me perseguindo como um psicopata. Mas ele é um cara legal, não é? Eu tinha menos certeza disso do que nunca... Seus olhos, que de tanto buscarem os meus sempre os encontravam, me pareciam meio desvairados. Ele não vinha falar comigo ou insistir para que voltássemos a namorar, mas, por algum motivo, eu tinha para mim que ele planejava algo de não muito bom para atingir esse intento. 

A impressão durou pouco. De repente ele sumiu de vez do meu campo de visão, da minha vida, do mapa. Senti-me mais segura e confiante para conhecer alguém novo, diferente, que pudesse me fazer feliz. Saí com algumas pessoas, interessei-me por uma ou duas, não tive nada sério com ninguém. Por algum motivo, a lembrança dele ainda exercia alguma influência sobre mim. Não que eu o amasse; eu era esperta o suficiente para não me permitir alimentar sentimentos por alguém tão machista e egoísta. Também não era medo... Era uma certa obsessão. Por incrível que soe, era uma certa obsessão. 

Comecei a procurar por quem conviveu com ele para pedir notícias. Onde é que ele está? Por que desistiu tão fácil de mim? Quando eu dizia seu nome com uma dúvida esperançosa, olhavam-me como se eu fosse louca. Tinham pena de mim e eu não lhes tirava a razão: eu estava procurando por um homem que não me merecia. 

Disseram-me mais tarde que o problema não era esse... O problema era eu procurar por um homem que nunca existiu. A princípio achei que estavam mentindo, ludibriando-me como se ludibria uma criança que faz birra por algo que não é saudável. Eles não tinham esse direito. Eu já tinha idade suficiente para tomar minhas próprias decisões. 

Venceram-me, contudo. Depois de muita insistência de um amigo próximo, resolvi buscar ajuda médica. A psiquiatra me atendia às quartas, e concluiu que eu havia criado um personagem que me forçava a seguir meus próprios conceitos. Segundo ela, eu havia personificado a dureza que tinha comigo mesma. Eu era a machista. Eu era a carente. Eu precisava de uma presença autoritária e temida que justificasse o fato de eu não me envolver romanticamente com ninguém. 

Inúmeros remédios me foram receitados, e a doutora pediu que eu não deixasse de comparecer à terapia. Eu disse que tudo bem. Saí para a rua, ofuscando minha vista com o sol das onze e meia. 

Não pude conter minha felicidade quando, a cinquenta metros dali, brilhando de modo convidativo, vi um carro prata. Era ele! Ele voltara! Ele estava esperando por mim! 

Estavam todos errados, afinal. Eu não inventara nada, não estava louca, não estou. Atirei a receita médica amassada para os ares e corri naquela direção, entrando afobada no automóvel. Ele sorriu quando me viu, deu-me um beijo no alto da testa, disse que sentira muito minha falta e me fez prometer que, dali para frente, eu fosse boazinha. Pedi-lhe que deixasse de ser escroto. Ele riu. 

Não me lembro do que aconteceu depois. Beijamo-nos? Fomos passear pela cidade? Tivemos uma longa tarde amor? Só consigo me lembrar deste quarto — este quarto que não é meu, nem dele, nem nosso, mas é onde todos acham que devo ficar. Enfermeiros entram e saem, outras visitas são poucas. Ele mesmo ainda não veio me visitar. 

Mas estou esperando. Ele disse que sou dele. Ele virá. 

6 comentários:

  1. Tuas narrativas sempre tão surpreendentes e críticas, Lari. Tanto transtorno hoje em dia se dá pela dureza com que lidamos com nós mesmos: nos falamos coisas diante do espelho que não falaríamos nem para o pior dos inimigos. Por que, tantas vezes, nos tratamos tão mal?
    Lindíssimo. Continuo aguardando algum livro teu nas livrarias afora. Beijos <3

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    1. Natália, muito obrigada ♡

      Concordo com tudo o que você disse. Essa atitude que temos com nós mesmos leva, muitas vezes, à ansiedade e à depressão, problemas seríssimos na nossa época.

      Obrigada, mais um vez! Beijos e uma semana bem bonita pra ti ♡♡

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  2. Anônimo19/2/19

    Só tu sabe construir o mundo do avesso e ele fica perfeito.
    É sempre um privilégio te ler, sempre é!

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    1. Privilégio é ler uns comentários inspiradores assim ♡

      Gratíssima!

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  3. Esse suspense psicológico daria uma boa continuação de Ilha do Medo, construiu bem!

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    1. Ilha do Medo é um filme tão bacana, né?

      Obrigada 😊

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