Nota sobre a perfeição


18 de novembro de 2018

Os dias têm sido compridos às vezes solitários sempre produtivos. Eu gosto e desgosto de como têm escorrido — o banho é parco, mas a água é morna e gentil à pele. Tenho me focado tanto em mim... De mente, de corpo, de alma: autoaperfeiçoamento constante. A perfeição é uma borboleta de voos altos e asas de vidro; persegui-la dos jeitos certos dá sentido à vida. Você entende? Não é sobre agarrá-la... É sobre questionar-lhe aos berros acerca da metamorfose. (É sobre aceitar a ausência de respostas: mais se aprende com os tropeços causados pelos olhos a mirar o céu.) 

Honra ao mérito


Certezas não duram mais do que a glória dos heróis. A queda é rápida e violenta, e dos ossos quebrados não se reconstituem verdades que fizeram sentido quando os governos eram outros. Dos ossos quebrados não se fazem nem exposições paleontológicas... (O lucro é parco e não cobre os gastos, e quem é que quer saber qualquer coisa de qualquer coisa que não diz coisa com coisa.) O que se pode fazer é ver se há cachorro disposto a lhes sugar algum tutano — se não, joga-se terra por cima. Limpa-se bem as mãos. Finge-se que nada aconteceu.

Na caixa abandonada

Na garagem se guarda a caixa
dos sonhos que não servem mais.

Não se doam sonhos,
nem se os descartam
nos caminhões que passam terça e quinta
às nove da manhã.
É preciso arranjar-lhes espaço
(em casas já tão apertadas)
assim que se apartam de nós.
É preciso enrolá-los em jornais velhos
— não porque se assemelhem a refugos de mudança
mas para que se distraiam com as notícias
do tempo em que tinham função.

(Além disso, distraídos, não ficam a nos chamar e a nos encher o saco.)

Depois se fecha a caixa.
Depois se guarda a caixa na garagem,
na prateleira mais alta,
tão longe da vista quanto possível for.
Depois se pensa nos ex-sonhos com carinho,
no tempo em que nos serviam,
e os imaginamos abandonados
na caixa abandonada
no canto abandonado.

Já leram as notícias todas.
De tédio, mataram-se uns aos outros
a amaldiçoar nosso nome
e os dêiticos dos jornais.

Nossos duplos


1. 

Ao eu que se duplica no espelho só falta alma. Seus sorrisos bem treinados têm desafiado os meus, tão sem jeito, e por detrás do fulgor dos seus olhos vejo ideias que nunca teriam me passado pelo pensamento.

2. 

A evolução dos nossos reflexos refletem nossa própria insensatez: é preciso que fiquemos, o tempo todo, atentos a essas superfícies que nos reproduzem. Não importa que nos chamem de egoístas, narcisistas, tresloucados; é preciso tomar conta dos nossos duplos... (Certificarmo-nos de que ainda são bons discípulos a nos imitarem em tudo.)

3. 

Não se pode dar a eles uma liberdade maior do que essa. Não se pode ter pena.

4. 

Eu digo isso a mim mesma diante do espelho e o que vejo é ela, que do espelho me vê, balançar a cabeça para lá e para cá, É tarde, meu bem, é tarde. 

5. 

Engulo em seco. Afasto-me do espelho e vou dormir com medo: não quero perder-me o lugar. 

Todo e qualquer espaço vazio


Você ouviu o tropel dos cachorros de madrugada? Eles estavam fugindo dos boatos das vizinhas loucas. Diziam que a Terra está se partindo de desgosto, que a rachadura é tão grande que é provável que, amanhã pela manhã, já ouçamos o crack de um ovo gigante. Cairemos lá dentro, enquanto a lava escorre pelas bordas. Os cachorros sempre foram mais espertos do que os homens, mas acho que nem eles vão se salvar, se os boatos se provarem certeiros. 

Você sabia que todo e qualquer espaço vazio na galáxia já foi, um dia, ocupado por um planeta que se suicidou? 

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