Calma e una

Tenho caminhado rápido
e a desviar de buracos
que me surgiram no peito
e dos quais emergem gritos
de almas em agonia
Eu nem sabia que as almas
podiam gritar tão alto
e muito menos que um corpo
pudesse ter tantas almas
Tampouco sabia que o corpo
continha tantos infernos
Onde é que habitam os céus
e as almas que se salvaram?
As almas de lá não gritam
por isso não as encontro?
E onde me encontro eu?
Talvez eu deva gritar
mais alto que todas as almas
a ver se me tenho pista
a ver se me dou na vista
no meio do meu caminho...
Talvez eu deva gritar
mais alto que todas as almas
a ver se elas se calam
a ver se elas se juntam
e voltem, uma a uma,
a compor a minha alma
a qual eu pretendo calma
a qual eu pretendo una.

Terra Poetisa

Expulsos da República, os poetas vagaram por séculos, como o judeu errante. Para eles, no milk, no honey, no gold and glory on the way. Nas solas endurecidas dos pés, escreveram a sangue versos que ninguém leria. Choraram uns nos ombros dos outros, com a sensibilidade que — essa, ao menos — lhes era permitida. Até que chegaram à Pasárgada — não a Pasárgada dos persas nem a Pasárgada de Bandeira, mas uma Pasárgada terceira, meio Atlântida meio El Dorado, com a qual calharam de topar. Ali se estabeleceram, destronaram reis, descriaram leis, pariram crianças e poemas. Carpe diem. Uma vida doce, tão doce... Tão doce que enjoou. Toda aquela bonança. Toda aquela mesmice. Toda aquela arte sobre a arte e a arte é qual parte, destarte? Expulsaram-se da nova República. Outra vez Ahasverus, partiram em busca de ter sobre o que escrever. 

Cata-ventos d’ouro

Sim, os cata-ventos de ouro
se extinguiram
porque os acusaram de bagunçar ideias.
Eu não estava lá,
no fatídico dia
em que os arrancaram da terra.
Eu não estava lá,
mas de geração em geração
se transmitiu a tristeza
pela ausência dos vislumbres dourados
a sorrirem no vento.
Assim é que me dói,
me dói profundamente
saber que em nossa praça havia
um grande cata-vento dourado
que sorria,
dia após dia,
em nossos vendavais.
E pensar que foi derretido
e que do metal belíssimo
denteou-se a família inteira
do prefeito suposto ilustríssimo.
Eu conto tudo isso a Lúcia
— tão lúcida.
Ela me olha com desprezo
e diz que sou bagunçada das ideias.
Aí eu perco a paciência...
Já disse, Lúcia, já disse! 
O que bagunçavam as ideias eram os cata-ventos d’ouro,
e há tempos eles não existem mais.

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