Tanto

Se houvesse um contador eletrônico cuja função fosse marcar as miserabilidades humanas, o de Ana Fátima apontaria que, em 14 anos de casamento, já tinha brigado 3 892 vezes com o marido por causa da bebida. Enquanto, de barriga para o ar, ele roncava, ela, encolhida e virada para o outro lado, chorava de raiva. Imbecil. Desgraçado. Cretino. A vontade que dava de matá-lo. A vontade que dava de esfregar-lhe a cara no chão até que o cheiro de cachaça lhe saísse da boca. 

Suspirou. Um brutamontes daqueles, o contrário era mais provável... Já lhe sentira o peso da mão quando os dois eram mais jovens e ele, mais enérgico. Antes ela tivesse ido embora naquela época. Antes tivesse ouvido os parentes e amigos, Deixa de ser burra, mulher, denuncia essa peste, pede divórcio, cai fora, deixa de ser burra, parece que gosta de sofrer. De sofrer não gostava, mas sofria porque gostava dele. E se o largasse, iria para onde? 

Que tivesse ido à merda. Apertou os dentes enquanto nova lágrima lhe escorria pela face. Imbecil. Cachorro. Uma hora ainda te mato, pensava. Uma hora ainda te mato, ele lhe dissera tantas vezes. 

Virou-se para o lado do marido. O peito largo e peludo, a pança grande e redonda se movendo para cima e para baixo. Suor, álcool e perfume feminino exalavam da pele grosseira. Era de dar repulsa. Era de dar repulsa, mas... 

Carinhosamente, Ana Fátima passou-lhe a mão pelo tórax. Chorava em dobro. Por que é que você é assim. O que foi feito das promessas da época do noivado. Como é que nossa vida virou essa palhaçada. Por que é que você não emenda. Eu queria tanto que você virasse outra pessoa. Eu queria tanto, tanto que você virasse outra pessoa. Eu queria tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, tanto...! 

Pegou no sono com a prece na cabeça. Dormiu até que bem, apesar das circunstâncias. Quando a luz do sol inundou o quarto, abriu os olhos e se deparou com os do marido fixos nela. 

Antes de tudo sentiu um susto, um repuxar estranho no estômago. Arrepiada, apertou as pálpebras com força e tornou a abri-las, esfregando-as. A mesma miragem sinistra, a mesma estátua que, deitada com a cabeça apoiada em um cotovelo, sorria-lhe com olhos e com a boca. 

Teve um impulso de sorrir de volta, mas então se lembrou do ódio que ele lhe fizera passar na noite anterior.  

— Perdeu alguma coisa na minha cara, demônio?  

Ele, ao invés de lhe mandar para o inferno, como era costume, começara a rir e estendeu a mão para lhe acariciar o cabelo. 

Ana Fátima pulou da cama como se tivesse tomado um choque. O que é isso agora. Que é que deu nesse homem. Cadê a ressaca fazendo ele se arrastar pela casa e resmungar na minha cabeça a manhã inteira. 

Atordoada, foi jogar uma água no rosto e escovar os dentes. Demorou-se um tempo no banheiro, indagando-se ao espelho. Quando saiu dali para a cozinha, viu que a água do café estava fervendo e que, na mesa, já estavam servidos a manteiga, as bolachas e o pão. 

Germano virou-se para ela com o mesmo sorriso largo e parvo que lhe exibira na cama. 

— O que é que foi, pelo amor de Deus!? 

— Nada, ué. Não se pode acordar de bom humor? 

Não, não se pode. Não é assim que funcionam as coisas nesta casa. Aqui os sorrisos são tão bem-vindos quanto baratas. 

— Por que é que você tá felizinho assim? É algum rabo de saia? Eu senti o perfume vagabundo ontem, pra variar. 

Germano se aproximou de Ana Fátima, ainda sorridente, inclinou-se para ela e sussurrou-lhe no ouvido: 

— Rabo de saia pra quê, se divido a cama com uma deusa? 

Arrepiou-se. Arrepiou-se e não era excitação que lhe arrepiara — era medo. Muito medo. 

Encarou com dificuldade a face diante dela. 

— O que é que tá acontecendo? O que é que você quer? 

— Quero tomar um café sossegado com a senhora minha esposa. Podemos? 

Ele afastou a cadeira para que ela se sentasse, e ela se sentou. Ele se sentou também, depois de terminar de passar o café e colocá-lo na mesa. O sorrisinho diabólico ainda lhe estampando a cara. Rígida, Ana Fátima pegou a faca para cortar e amanteigar o pão. Não tirava os olhos das próprias mãos, mas sentia-se vigiada o tempo todo. Mastigou devagar, consciente dos dentes a esmagarem o bolo de farinha, dos pés inquietos sob a mesa, do companheiro que sorvia o café como se lhe sorvesse a própria alma. Ouvia os carros lá fora, as rodinhas das mochilas das crianças que iam para a aula, o cachorro da vizinha latindo sem parar para um homem que estacionara uma moto. Voltava a ouvir a própria mastigação e os goles de Germano. Voltava a estudar a trama da toalha de mesa. Estudava os padrões florais no tecido e ouvia o seu mastigar e o outro engolir e seu coração batendo alto e seu coração batendo cada vez mais alto e mais rápido e... 

Destampou a chorar, jogando o resto de pão no chão. O que é que tá acontecendo. O que é que tá acontecendo. O que é que tá acontecendo, eu não tô entendendo o que tá acontecendo. Cê não é assim, Germano, cê é um bruto arrogante. Por que é que você tá fazendo isso comigo. Por que é que cê tá brincando comigo desse jeito, que nem um gato brinca com um gafanhoto antes de matar ele e comer. Por que, Germano, por quê. 

— Do que é que você tá falando, amor? — perguntou o outro com cara de bobo, enquanto se levantava e contornava a mesa para abraçar a esposa. — Êêêêêê.... Passou... Passou... 

Quando Germano a abraçou pelas costas e lhe beijou o pescoço, percebeu que o cheiro que o impregnava na noite anterior tinha sumido sem deixar vestígio. De súbito, então, lhe veio à mente uma recordação: a prece que fizera com tanto empenho. Eu queria tanto que você virasse outra pessoa. Tanto. Tanto. 

Engoliu o choro. 

Desvencilhou-se do abraço de Germano e arrastou a cadeira com força, disparando dali para o quarto. Trancou-se. Percebeu que tremia de pavor. Ironicamente, o que temia não eram as agressões que tantas vezes sofrera, nem mesmo o pressentimento de que sua vida estava em risco que a princípio lhe assaltara. O que temia era tudo o que adivinha de uma certeza que, por sua vez, lhe enchia de incertezas: aquele não era Germano. Aquele homem não era Germano. 

Eu queria tanto que você virasse outra pessoa. 

Pôs-se a andar de uma ponta à outra do quarto. Germano se pôs a bater na porta. Parou de andar, ficou quietinha, mas Germano continuou, toc, toc, toc, toc, toc, toc. Fatinha. Fatinha. Abre essa porta, Fatinha. Toc, toc, toc, toc, toc, toc, toc. Fatinha, eu tô ficando preocupado, meu bem. Fatinha! Toc, toc, toc, toc, toc. Fatinha! Fatinhafatinhafatinhafatinhafatinhafatinha... 

Ana Fátima gritou, um grito longo e angustiado que atravessou a vizinhança. Se ainda estivesse ouvindo qualquer coisa, notaria que agora macetavam a porta de entrada da casa também. 

Mas não ouvia mais nem a razão — mesmo porque esta já se calara lá atrás, no início do casamento. 

Catou a pistola que Germano guardava na gaveta. Catou a pistola e atirou na porta do quarto, uma, duas vezes, três vezes.  

Eu queria tanto, tanto, tanto. 

Se houvesse um contador eletrônico que contasse as miserabilidades humanas, o de Ana Fátima teria marcado: aquele fora o primeiro homem que ela matou.

8 comentários:

  1. Vou concordar como GK, e dizer que foi melhor que cinema, porque me deixou livre para imaginar as cenas.
    Ótimo fim de semana e grato por me privilegiar com tua excelência.
    Abraço.

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    1. Só tenho a ser grata também: muito obrigada, Ney!

      Abraço enorme!

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  2. Menina, há tempos não lia um conto tão bom! Adorei o suspense, a ambientação, a descrição do estado psicológico da Ana Fátima. Deu vontade de ler um livro só com textos seus!

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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    1. Honradíssima por esse comentário lindo ♡

      Muito obrigada mesmo, Fernanda! Um abraço cheio de carinho para você!

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  3. Não achei que ela fosse matar ele, poxa haha mas adorei conto, muito boa narrativa.

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