O presságio das longarinas

Longarinas flutuam
entre palavras que acho bonitas
mas que não sei bem o que significam.
No barco da estética,
estendo a mão sobre ondas de poesia
cujo som ressoa nos cílios
de crianças semiadormecidas.
O ressonar das crianças é o ritmo das ondas.
As palavras que ainda não dizem
são o fundo obscuro deste oceano em que navego.

Um pássaro me sobrevoa cortando o céu e a estrofe.
Seria o pássaro uma longarina? 

Respiro fundo,
movendo a maré com menos destreza
do que os pequeninos.
Causo uma agitação que se revolta contra mim:
dez metros de poesia
me abocanham
me engolem
me digerem
devagar.

Volta o barco vazio à superfície;
meu corpo repousa em gozo
no fundo deste poço-mar.

(O eu-lírico se salva e chega à praia.
Seca-se ao sol.
Pensa sobre liberdade,
longarinas
e longas vidas etéreas.)

Violenta emoção

A ira dos deuses irrompeu às duas e meia e foi contra um sujeito que não se amava. Ele sentiu o golpe nas entranhas e bradou aos céus, por que eu. Os deuses, mais calmos, deram de ombros: sei lá, por que ele? Foi a emoção, alguém se lembrou de dizer, essas emoções violentas têm fins violentos. Houve risos constrangidos e consenso geral, mas o que fazer com aquele homem que continuava chorando e gritando por que eu por que eu por que eu. Porque você é especial — um mensageiro, enfastiado, sussurrou-lhe ao ouvido. O homem sorriu: ah. Então tá bom.

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