Sóbrio

by - 13.8.19

Em geral apreciava passar um tempo com os amigos, rir, jogar conversa fora, mas depois de um tempo acompanhado era natural que seu lado sociável começasse a fraquejar. Aí bocejava de meio em meio minuto, ficava mais lento, não entendia de primeira nenhuma das palavras que lhe dirigiam. Não demorava muito e não entendia mais nada. 

Costumava ir para casa bem antes que a coisa chegasse a tal ponto. Naquela noite, contudo, fora praticamente obrigado a ficar... Dois dos colegas já tinham passado dos limites, e o cara novo do trabalho, normalmente tão quieto, não parava de rir de uma piada qualquer. O chefe estava ali também e fora categórico, apesar do tom de brincadeira: “Você é o único que não bebeu. Vou deixar por tua conta levar a gente na volta.” 

Custou a dar o horário da volta. 

Um dos rapazes fora trazido para dentro do carro quase desmaiado. O novato continuava rindo. O outro colega e o chefe papeavam animadamente sobre lambaris — ainda que, provavelmente, nenhum dos dois soubesse dizer como aquele assunto tinha começado. 

Pôs a chave na ignição, bocejou, esfregou os olhos, arrancou o veículo. As luzes dos postes surgiam-lhe embaçadas pelos olhos embaçados. Esfregou-os de novo, bocejou de novo. 

Não sem algum receio de parecer mal-educado, ligou o rádio. Uma boa música o despertaria mais do que qualquer prosa fiada. Ou pelo menos era isso o que pensava... A falação ininteligível, a canção de fundo, a chuvinha fina que começava a cair... Tudo um ruído só, que fazia seus olhos pesarem... Pesarem... 

Uma pisada forte sobre seu pé, um barulho de freada brusca, um grito: 

— PORRA, CARA! CÊ NÃO TÁ VENDO A PORRA DA PONTE QUEBRADA? 

A voz era do chefe; o pé que pisara sobre o seu, no freio, também. No banco do carona, o homem parecia irado. 

— Que que deu no cê, cara? Olha o tamanho dos cone e da placa avisando, a cento e cinquenta metro de distância já dava pra ver! Cê tava dormindo? Era isso, cê tava dormindo? 

Não que agora estivesse completamente acordado. Ouvia os gritos esgoelado-semiengrolados, mas mantinha os olhos no para-brisas porque havia algo estranho... Uma neblina estranha... 

Tinha uma breve noção de um choro no banco de trás, e de uma conversa ansiosa em que se questionava quando a maldita ponte tinha quebrado. “Caralho, a gente ficou tanto tempo assim no bar?” “Cadê a polícia, mano? Cadê o povo da TV noticiando tudo?” “A gente passou por aqui na vinda, não passou? Foi por aqui, não foi?” “Eu tava até pensando que...” “... mas na TV do bar tava no canal do...” “... os grupo do meu Whats tá tudo silenciado, não sei...” “... foi ontem, eu lembro que...” 

— Tá esperando o que pra dar ré e sair daqui??? — perguntou o chefe, ainda exaltado. 

Saiu foi do carro, sob o protesto dos outros e sem saber bem o motivo. É que a neblina... A neblina... Por detrás... 

Passou por cima da corrente de bloqueio e aproximou-se da beira do asfalto partido. Não era possível ver o rio, ainda que a lua fosse alta no céu. E então aquela fraqueza nas pernas, aquele torpor, aquela vontade cair direto sobre o colchão sem nem se despir e... 

— SAI DAÍ, SEU MALUCO! SAAAAAAAAI!!! 

Mal ouviu. 

Um resmungo de boa noite, um ceder à gravidade e deixar-se adormecer. 

2 comentários

  1. Oi, Larissa como vai? Adorei o conto! Embora seja um sucinto conto, o escrito tem muito a dizer, principalmente sobre a humanidade em que atualmente se parece mais com um bando de esquizofrênicos em série. Sua escrita é fascinante. Um abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vou bem, e você?

      Obrigada! Muito interessante sua interpretação 😊

      Obrigada, mais uma vez, e uma ótima quarta-feira para você! Abraços!

      Excluir