Levanta-te

I

Sabia que era um sonho e isso lhe poupava o clichê de, mais tarde, descobrir que era apenas um sonho.

Dava-lhe alguma autonomia, a consciência dentro da inconsciência, mas lhe dava também algum pavor... Poder escolher a direção em que fugir de um monstro não impedia que um monstro aparecesse a qualquer momento. Havia muito ela não pisava ali; não sabia a quantas iam aquelas paragens, se estavam seguras, se alguma vez foram seguras.

Uma brisa gelada soprou contra seu corpo. Questionou-se se o corpo real, repousado na cama, sentira aquilo. Ou seria o contrário? Ou esquecera a janela do quarto aberta e ali, dentro de si mesma, reproduzia o sopro noturno?

No sonho, era dia. Um dia fresco, um deserto que parecia infinito e que ela, contudo, sabia muito bem aonde dava. 



II

A pequena e charmosa cidade fantasma. Casas cor-de-rosa, cortinas de babados, paralelepípedos lisos, brancos e brilhantes que continuavam a ser polidos, cotidianamente, pelos seis polidores municipais. Eram os únicos habitantes que ainda residiam ali. Na primeira vez que sonhara com o local, descobrira, através de uma breve conversa com um deles, que o polimento de paralelepípedos era mais que um dever: era uma arte sagrada e hereditária. 

Não tivera tempo, porém, de saber mais sobre o ofício. Pior: nem lhe passara pela cabeça questionar o que houvera com os demais cidadãos. Acordara chateada porque, daquela cidade, não conhecia sequer o nome. Como podia visitar locais tão intrigantes sem que, neles, controlasse suas escolhas ou soubesse quanto tempo ficaria? Era uma curiosa. Era uma exploradora. Como podia ser restrito um espaço dentro dela mesma? Como ela mesma podia ser tão restrita?

Passados alguns meses, tivera contato com a possibilidade de se forjar sonhos lúcidos. Os exercícios para consegui-los eram simples, tais como anotar tudo com o que sonhava ou, durante o estado de consciência, dizer para si mesma onde se encontrava. “Estou na sala da minha casa.” “Estou na cantina da universidade.” “Estou na rodovia que leva à casa da minha mãe.”

Numa noite, sem mais nem menos: “Estou sonhando. Estou num pátio feio, sujo e escuro, e estou sonhando.”

Era o tal sonho lúcido, mas o lugar não era dos mais convidativos e estimulantes. Talvez seu subconsciente tivesse se acanhado com a presença de um ser crítico em seus aposentos. Ou talvez só lhe tivesse negado, outra vez, a entrada: vinde a mim os adormecidos, que é deles, é só deles, o reino dos absurdos.

Mas, técnica aprendida, outros sonhos lúcidos vieram. Sonhos que valeram a pena: voos sobre montanhas e vales, banquetes que não engordavam, sensações que superavam todas as que tivera na vida. E os lugares mais belos. Ela arquitetava e vivia tudo: em seu próprio paraíso, era a deusa e era Adão e Eva.

Ou nisso acreditava. Em certo sonho viera parar, pela segunda vez, na cidade fantasma dos polidores de paralelepípedos. Estavam em plena atividade, e não pararam o serviço enquanto lhe respondiam as tantas perguntas que, agora, podia fazer:

— O que aconteceu com os outros moradores?

— Resolveram morrer no mesmo dia.

— Mesmo! Que horrível! Foi peste, foi suicídio, foi tragédia?

— Resolveram morrer no mesmo dia.

— Mas... Mas... Vocês tiveram que enterrar todos? Como conseguiram?

— Nosso trabalho é polir, não escavar.

— Quem os enterrou então?

— Neles é que se enterraram os bicos dos urubus.

— Céus! Que horror! Como vocês polidores continuaram a viver aqui com tantos cadáveres, com tanto mau-cheiro, com... tanta tristeza?

— Nosso trabalho é polir, não fugir ou lamentar.

— E quando o trabalho estiver completo? Quando os paralelepípedos todos estiverem polidos, sem uma ranhura, sem uma irregularidade, sem nada que os torne imperfeitos?

— Nesse dia os mortos se levantarão.

E ela se levantou, assustada, da cama indiferente. Os polidores lhe causaram má impressão. Não eram criaturas suas, não lhes tinha controle. Não lhe olhavam nos olhos e não tiravam os olhos do chão.

Resolvera que não voltaria lá. Com o avançar da faculdade, aliás, resolvera que sequer voltaria a conceber sonhos lúcidos. Perdera o ânimo. Às noites, se estava sozinha, queria apenas a benção de um sono bem dormido.

Mas, após alguns meses, a cidade fantasma lhe retornara uma, duas, dezenas de vezes nos sonhos comuns. Apareciam em meio a cenas inocentes: um sonho em que adotava os cachorros vadios do bairro e de repente os polidores, polindo sem parar. Um sonho em que se reconciliava com a ex-namorada e de repente os polidores, polindo sem parar. Um sonho em que fazia panquecas de caramelo e de repente os polidores, polindo sem parar. 

Atormentada, resolveu que o melhor era se entregar a um sonho lúcido e retornar à cidade. Falar com os polidores, pedir que lhe deixassem em paz. Matá-los, se fosse preciso.


III

No sonho, era dia. Um dia fresco, um deserto que parecia infinito e que ela, contudo, sabia muito bem aonde dava. Depois da brisa gelada, dois cavaleiros assomaram ao longe — sem nuvens de poeira, sem barulho de galope. Aproximavam-se como uma miragem. Aproximavam-se como um presságio ruim.

Aproximaram-se. Usavam trajes e cavalos negros, tinham olhos negros e...

Não. Não tinham olhos negros. Não tinham olhos.

Eram crânios sem pele que se avolumavam por baixos dos capuzes, eram caveiras que cavalgavam e que passaram por ela e, num sussurro que era mais vento do que voz, disseram: 

— Levantamo-nos. É hora.

(E de repente os polidores, parando de polir.)



IV

“Nesse dia os mortos se levantarão.”

Ela acordou suando frio. Levantou-se tremendo.

Olhou ao redor, mas não reconhecia o quarto da república.... Era engraçado porque, quando se mudara da casa dos pais, por várias vezes acordara se perguntando onde estava, tentando compreender que quarto era aquele que não era o outro, em que crescera.

Aquele não era o quarto da república e não era o quarto em que crescera.

Raios de sol passavam pelas cortinas, fazendo sombras rendadas na parede cor-de-rosa.

“Nesse dia os mortos se levantarão.”

O coração batia rápido, as pernas mal a sustinham de pé. As pernas... 

As pernas.

Os braços.

As mãos.

No espelho, viu a si a mesma ainda que no lugar dos olhos houvesse buracos.

“Nesse dia os mortos se levantarão.”

Correu para a janela. Muitos como ela. Olhou para o chão: paralelepípedos perfeitamente polidos — sem uma ranhura, sem uma irregularidade, sem nada que os tornasse imperfeitos.

Sabia que era um sonho. É só um sonho. É só um sonho. É só um sonho só um sonho só um sonho é só um sonho e agora só preciso acordar e...

...

Acordou suando frio. Levantou-se tremendo. O coração batia rápido, as pernas mal a sustinham de pé. Raios de sol passavam pelas cortinas, fazendo sombras rendadas na parede cor-de-rosa.

...

Acordou suando frio. Levantou-se tremendo. O coração batia rápido, as pernas mal a sustinham de pé. Raios de sol passavam pelas cortinas, fazendo sombras rendadas na parede cor-de-rosa.

...

Acordou suando frio. Levantou-se tremendo. O coração batia rápido, as pernas mal a sustinham de pé. Raios de sol passavam pelas cortinas, fazendo sombras rendadas na parede cor-de-rosa.

...

“Nesse dia os mortos se levantarão.”

É só um sonho só um sonho só um sonho só um sonho é só um sonho e agora só preciso acordar acordar acordar acordar acordar e...

2 comentários:

  1. Oi, Larissa como vai? Que conto bacana, mistura fantasia com realidade. Um terror brando psicologicamente perturbado na consciência presente no inconsciente da psique humana ao qual chamamos de sonho. Muitas das vezes os sonhos são reflexos de nosso descontentamento de uma realidade medíocre ao qual a maioria das pessoas se acostumou a viver, deixando de lado os verdadeiros sonhos escondidos por debaixo do tapete da ignorância, envolto pela penumbra do vazio irracional em que parte da sociedade vive atualmente, infelizmente. De qualquer modo eu amei o seu conto, muito realista, embora carregado de metáforas acercando o leitor do que esperar do amanha. Ou será do hoje? Parabéns. Um forte abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com

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    1. Oi, Luciano!

      Muitíssimo obrigada pela visita, pelo comentário, por ter gostado do conto ♡

      Que nossos sonhos nos mantenham sempre alertas, certo?

      Abraços e uma ótima semana para você!

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