Halloween

Ele disse Tá vendo, é só balançar as chaves que os passados vêm correndo. 

Eu ouvi as patas a derraparem em corrida e vi o sorriso em seu rosto e senti a alegria que o uniu às suas criaturas quando cruzaram a porta do quintal de dentro, pulando em suas pernas, abanando o rabo e pedindo um passeio, e a ternura com que ele acariciava cada um daqueles passados tão bem cuidados, o pet-shop da Reinvenção lhes aparou o pelo e perfumou o pelo mesmo que alguns mal tivessem pelos mais, e lhes puseram lacinhos no alto da cabeça, e lhes emperequetaram assim, como se estivessem vivos, para agradarem aquele dono que sacudia chaves a chamar para um passeio, e eu observando a cena também sorrindo, e eu de repente ouvindo o chão tremer, bang, bang, bang, bang, cada passo um terremoto, cada passado emperequetado tremia, gania e se escondia como podia, bang, bang, bang, bang, cada vez mais rápido, mas a cena em câmera lenta, em câmera lenta foi que surgiu à porta o passado mais feio que já vi, de nada adiantaram os lacinhos porque aquele passado os arrancou e comeu e tinha pedaços deles agarrados entre os dentes, aquele passado rosnava e salivava e eu não tinha medo, eu não tinha medo porque não era a mim que ele olhava, tinha pena de quem era olhado, as chaves caíram ao chão, já nem sinal dos passados emperequetados, apenas o dono de um passado-monstro em que tempo-shop nenhum dera jeito, apenas aquele passado e um dono desdonado que atravessou a porta e correu, correu como se não houvesse amanhã, como se só houvesse ontens.

6 comentários:

  1. Oi, Larissa como vai? Que conto agradável, apesar de ser nomeado de Halloween, o achei bem tranquilo e bastante suave, mas como sempre, muito bem escrito por ti. Repetirei mais uma vez, como escreves bem. A propósito gosta de Halloween? Ou você é daquelas pessoas adeptas à passarem longe dos assombros que cerqueiam essa festa, às vezes tenebrosa. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Vou bem, e você?

      Obrigadíssima, Luciano, mesmo!

      Acho que o Halloween é uma manifestação cultural interessante e inspiradora, mas não costumo ficar especialmente empolgada com a data. Por ser brasileira, talvez? O imaginário que tenho dela se faz apenas por referências (em geral fílmicas), por assim dizer, e a do título desse texto é mais uma, haha!

      Abraços e um ótimo fim de semana para você!

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  2. Bonjour, miss Larissa. Ça va?

    Estou contente por comentar em seu cantinho novamente, pois estava sem tempo nenhum por causa da faculdade e do estágio. Agora que consegui um respiro, prometo voltar aqui sempre para ler suas inteligentes e criativas palavras.

    ALIÁS, eu amei esse conto. De verdade, com todo meu coração. A forma que você deu a ele foi bem similar a que eu emprego nos meus contos, algo como palavras soltas e ações em cima de ações, descrições em cima de descrições, sem respiro. Por isso, me senti ainda mais conectada com esse post.

    Espero te ver de novo em meu jardim secreto. Agora, consegui resolver alguns problemas com os comentários de lá, então, se você comentou um dia e não respondi, é porque não vi, de verdade.

    Beijos açucarados

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    1. Oi, Bruna! Tudo bem, e você?

      Senti sua falta, mas posso dizer que, como universitária em final de semestre que também sou, te entendo completamente, haha... E agradeço muito a gentileza de sempre ♡

      Que bom que você amou, aaaah ♡♡ Adorei ler sua opinião!

      Pode deixar que aparecerei por lá! Meus dias também têm sido um pouco corridos e até meu blog andou bem desatualizado, mas quero voltar a visitar os cantinhos que aprecio, como o seu!

      Beijos e uma semana linda pra ti!

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  3. Tu é sempre surpreendente. Gosto de quando tu é imensa e eu não te conto de quanto me encanta a poética em teus contos, como em tua poesia.
    Eu penso que tu é unica, e me entrego à tua singularidade.
    Abraço.

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    1. E eu, sempre, só tenho a agradecer imensamente a você!

      Abraços e bom resto de semana, Ney!

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