Como se confeccionam perguntas típicas

“Então é Natal, o que você fez?”

(Luzinhas piscando em alerta
o quê - o quê - o quê.)

Sorrio semi-sem-graça
porque fiz poemas,
muitos poemas,
mas não se respondem "poemas"
a uma pergunta como essa
e na pressa
de sumir cena
quase passo,
com covardia,
o peso sobre meus ombros
ao mais novo da família
− com outra pergunta,
e ainda mais daninha:
“E as namoradinhas?”

Pavê

P’a vê com’é que a vida
se repete a cada ano...
Os tios ganham algumas rugas
e alguns cabelos brancos
mas não perdem a piada
nem as tias perdem a receita
que fazem resignadas
enquanto lembram de
Fulano quando era menino, lembra?
Ele tinha tanto medo
que o Papai Noel ficasse preso
dentro da chaminé...

Ainda que Papai Noel não exista,
muito menos chaminés.

(Mas sempre existiu a cozinha
onde se prendem,
sozinhas,
a vó,
a mãe,
as tias.)

Grande Família

 As pessoas vão sumindo das fotos 
 e as fotos vão sumindo dos álbuns 
 mas é importante que se mantenham: 
 − as taças cheias; 
 − as tretas depois da ceia. 

O Tempo Perdido da Busca

Não tem mais a mesma graça
ver o rosto espelhado
na esfera natalina
(em seguida afastá-lo
aproximá-lo
afastá-lo
– o nariz alarga e afina,
alarga e afina).

Nem tem mais a mesma graça
de quando menina
pendurar as esferas na árvore
ou montar a árvore
ou sequer tirar a árvore
da caixa empoeirada
de cima do armário
mas penso, profunda e comigo:
da infância restou o açúcar 
que sempre fica 
no prato dos figos.

(Ainda que,
quando criança,
eu não comesse figo.)

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