O bom aventureiro


A caneta começa despretensiosa ou assim é que pretende. Que finge. Há uma ideia na manga? Há um caminho escolhido? O mapa foi entregue por um sujeito que surgiu à noite, a capa a cobrir-lhe a cara. O mapa estava na manga. Passou das mãos enluvadas às que segurariam a caneta, e então o sujeito misterioso sumiu. (Antes colocou o indicador sob os lábios como quem pede silêncio. Como é que se silenciam as ideias. Como é que se ouvem as ideias.) O mapa foi aberto e estava em branco, ou isso foi o que pareceu. Agora a caneta corre sobre o papel vazio. Agora a caneta percorre a geografia inexistente de terras a se descobrir. Conexões cerebrais, uma sugestão que leva a outra que leva a outra. Nem tudo se aproveita; alguns atalhos são emboscadas. Mas o bom aventureiro persiste, a despeito dos espinhos que lhe cortam o rosto nos matos muito fechados e de escuridão tão densa que sufoca. A caneta vai cortando os espinhos. A caneta vai cortando caminho, e ilumina os passos que tentam chegar ao ponto. Mas sempre há outro ponto. E mais mais um ponto. O ponto final é só uma pausa merecida, um encostar no tronco de uma árvore e tomar um gole da garrafa. Um olhar para o céu a ver se há estrelas. Um lembrar de que não importa quão denso seja o breu, as estrelas sempre estão lá.

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