Abrigo

É um processo lento o adaptar-se
ao novo lar que é si mesmo
quando a reforma não foi planejada
mas dada de mão beijada
— e não por um programa de auditório
(que bate na porta às três da tarde
com a multidão gritando aêêê)
mas por aquilo que,
sorrindo,
o pedreiro chamou Destino.
Então foi isso, Destino.
Assim atino
quando me admiro de dentro pra fora
a olhar essa parede nova
que ainda cheira a tinta
e dá até medo de tocar
— vai que meus dedos
deixam marcas
e o Destino
vem me visitar
e olha o tamanho do estrago
e pensa, desesperado,
Por que é que eu perco tempo 
agradando essa menina 
e começa a quebrar a parede
marretada após marretada
(Por quê? Por quê? Por quê?)
e eu do lado embasbacada
olhando sem fazer nada
o Destino acabar comigo
ao destruir-me o abrigo.

Enfim.
É melhor não deixar marcas.
É melhor tomar cuidado com o piso novo também.
É melhor parar de tropeçar
nesse sofá
que me colocaram no meio da sala de ser-estar.
É melhor me acostumar
que tudo esteja tão mudado
graças ao presente que me foi dado
e ao presente que já é passado.

Mas, ah... 
É um processo lento o adaptar-se!

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