Promessa póstuma

Ondas de calor
sufocaram
sentimentos em muda.
Caminhando ao poente,
vejo os cadáveres tênues
apodrecendo tensos
e dizendo
Desculpe-nos 
por ainda estarmos aqui. 
Logo nos decomporemos por completo, 
adubaremos seu peito 
para que se componham versos. 
Ouço os lamentos fantasmagóricos
como quem ouve a Terra girar sobre o próprio eixo,
como quem ouve o farfalhar das nuvens
e as montanhas quando se deitam para descansar.
Ouço como se ouve tudo
o que não se ouve
— porque não há.


 Mas sinto os brotos dos versos 
 quando chego em casa;
 cumpre-se a promessa dos fantasmas.

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