Descuido

O cachorro morreu de sede
num cesto
dentro do armário.
Quando o vi,
tal anjo que subiu aos céus,
arranquei-me os cabelos a pensar no meu descuido
— no que faço aos meus afetos
— na sede a que os relego
— por que é que os renego?

Por que é que sou assim?

Egoísta!
Não vão lágrimas
matar de sede nenhuma alma...

Mas talvez, quando eu acordar
a pensar sobre cestos, defuntos e Freud,
eu pense também sobre você
e sinta a mesma carência que matou o cão.

(E peça-lhe desculpas.)
(E peça-lhe que me mate a sede.)
(E peça-lhe que me ouça os sonhos.)

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