Halloween

Ele disse Tá vendo, é só balançar as chaves que os passados vêm correndo. Eu ouvi as patas a derraparem em corrida e vi o sorriso em seu rosto e senti a alegria que o uniu às suas criaturas quando cruzaram a porta do quintal de dentro, pulando em suas pernas, abanando o rabo e pedindo um passeio, e a ternura com que ele acariciava cada um daqueles passados tão bem cuidados, o pet-shop da Reinvenção lhes aparou o pelo e perfumou o pelo mesmo que alguns mal tivessem pelos mais, e lhes puseram lacinhos no alto da cabeça, e lhes emperequetaram assim, como se estivessem vivos, para agradarem aquele dono que sacudia chaves a chamar para um passeio, e eu observando a cena também sorrindo, e eu de repente ouvindo o chão tremer, bang, bang, bang, bang, cada passo um terremoto, cada passado emperequetado tremia, gania e se escondia como podia, bang, bang, bang, bang, cada vez mais rápido, mas a cena em câmera lenta, em câmera lenta foi que surgiu à porta o passado mais feio que já vi, de nada adiantaram os lacinhos porque aquele passado os arrancou e comeu e tinha pedaços deles agarrados entre os dentes, aquele passado rosnava e salivava e eu não tinha medo, eu não tinha medo porque não era a mim que ele olhava, tinha pena de quem era olhado, as chaves caíram ao chão, já nem sinal dos passados emperequetados, apenas o dono de um passado-monstro em que tempo-shop nenhum dera jeito, apenas aquele passado e um dono desdonado que atravessou a porta e correu, correu como se não houvesse amanhã, como se só houvesse ontens.

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