Registro de um momento presente (1)


Um banco de madeira, quase 17h, 21 de junho de 2020.

A cada alguns segundos uma folha ressecada caindo do limoeiro. Estalos vindos do mato: quero e não quero saber por quê. Ao longe os tiques da tesoura de poda. Mais ao longe, a estrada trazendo o som de algo vindo à distância. (À distância de sonho? É real a estrada?) Tirivas que gritam, bois que sobem a colina. Muge um dos bois, um mugido com corpo próprio, o boi mesmo já sumido do campo de visão. Limões amarelo-alaranjados pululam toda a paisagem, limões-pop-art no meio do mato. As nuvens, pinceladas de qualquer jeito — no domingo até o céu tem preguiça. Conversam as pombas do ar, e os grilos. Os dedos dos pés, inquietos dentro das botas. Eu, tentando voltar ao livro.

Um sonho que me contaram, ou: a mensagem repassada

A enorme nuvem branca criou pés
e pisou a terra,
uma estátua gigantesca
vinda dos céus
e falante, ainda por cima,
porque tudo que cria pés
invoca de querer falar.

Encarou-me
como quem vai dar um recado
e mexeu solene
a boca solene,
mas na hora passou
a maldita de uma moto barulhenta
e eu gritei

“QUÊ?”

A nuvem-estátua-falante
revirou os olhos afetada,
como quem diz

— Não aguento gente lerda.

Mas não disse nada,
mais nada.

(Os mensageiros divinos
não repetem mensagens
porque depois da mensagem
é preciso sumir.
Se eles não somem na hora certa
a pessoa dispara a fazer perguntas
e é um saco tão grande ficar respondendo perguntas
ou ouvindo reclamação
ou dizendo tão polidamente quanto possível que
Ah, isso não é problema meu.)

(Os mensageiros só vêm dar um recado.
Os mensageiros devem sumir
antes que se perceba que,
de fato,
só vieram dar um recado.)

(Eles vêm com pompa não é à toa.)

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