Águas passadas

por - 19.8.20

Que Alonso não a amasse mais ela podia até entender, mas aquela palhaçada de história de sereia era demais. 
Lá fora, o sol das três maltratava o pasto já seco de inverno. Era a hora em que as seriemas cantavam e os cachorros dormiam, e que só um ou outro carro passava lá longe, na estrada. 
Deixou de lado o trabalho de crochê, suspirando, cansada. Tinha dias que a cabeça não lhe dava sossego, não importava quanto trabalho desse às mãos. Ia tão distraída que errava mesmo os pontos costumeiros — e várias vezes, como se a agulha também já não visse nela uma parceira.
A princípio, na primeira vez que o marido mencionara a tal sereia, o sangue ferveu-lhe o corpo. Metade ciúmes metade ira, xingou-o dos nomes todos que conhecia. Onde é que já se viu um velho que nem ‘ocê ficar se metendo com mocinha? Todo o vermelho da sua raiva parecia ter sugado a cor do homem à frente; Alonso até diminuíra de tamanho, e foi num sussurro gaguejado que disse que ela não tinha entendido nada.
Mas claro que tinha entendido. Daquela vez, tinha. Um homem que chega todo feliz e saracoteante em casa, que almoça com ar parvo de moleque apaixonado e que, para completar, ainda solta um Delinha, tenho que te contar uma coisa. Eu hoje conheci uma sereia. 2 + 2 = 4. Ela não tinha nascido ontem. E ai dele — ai dele! — se pensasse em lhe colocar chifres.
Não se lembrava se ele tinha se defendido ou tentado explicar qualquer coisa. Quando brigavam, Alonso era emburrado e quieto. Na verdade, no auge da sua raiva, ela não via ou ouvia mais nada; daí que depois só se lembrasse do seu lado da encrenca.
Mas a partir desse dia o companheiro ficara esquisito... Uns olhos sempre vidrados. Ela tinha que fazer três vezes cada pergunta para obter alguma resposta. Quer salada, Alonso? Alonso? Ô, Alonso! Quer salada?
Só que aí, o dia em que ela, sarcástica, perguntara a ele sobre a tal sereia, fora certeiro, uma vez só. Ele tinha olhado rápido para ela e, sorrindo, começado um Delinha, eu...
Não o deixara falar. Sabia o que vinha depois disso. Ao mesmo tempo, não queria nem saber.
Porém aquilo, é claro, estava a remoendo... Seu homem, sempre distante. O casamento já não era uma maravilha havia muitos anos. Normal, ela pensara a princípio. Havia sido assim com seus pais, com seus avós, talvez com todos os casais desde que o mundo era mundo. Era aceitar e pronto. Já aceitara, aliás, lá no dia do “sim’.
Teria dito “sim” se soubesse que, uns trinta anos adiante, seu legítimo esposo ia encasquetar com umazinha dos Delgados? Só podia ser dos Delgados... Fora nesse bairro que Alonso estivera no dia em que mencionara a tal sereia... Tinha ido pescar no Ribeirão das Batinas. Até tinha a convidado para ir junto, mas nesse dia ela estava com dor de cabeça e Ai, Alonso, me deixa quieta.
Até que outro dia, depois dos estranhamentos todos, ela acorda e não encontra Alonso ao seu lado, como de costume. Sobressaltara-se a princípio, mas depois dera de ombros. Foi mijar.
A manhã toda, contudo, a casa ficara silenciosa. Só ela. Só ela e sua angústia dando piruetas e subindo pelas paredes.
Depois do almoço, calçara os sapatos e vestira um casaco, saindo para o quintal. Ia atrás de Alonso. Palhaçada essa agora, sair sem nem dar aviso.
E o pior de tudo é que Alonso deixara, sim, um aviso. Um papelzinho branco, enfiado em uma das fissuras da porteira.
Nele, dizia: Delinha, tive que ir embora, não aguentei mais. Espero que me perdoe um dia. Deixei dinheiro que baste na gaveta do armário. O Armando já tá sabendo de tudo. Daí uns dias ele vem fazer companhia pra você.
Armando era o único filho que tinham. Tava mancomunado com o pai agora, era isso? Estavam todos contra ela?
E o pior de tudo, de tudo mesmo, era o final: Sereias existem, meu bem.
Que as sereias fossem todas para o inferno, cantar na cabeça do diabo.
Durante o resto daquele dia chorara. Chorara de raiva. Chorara de ego ferido. A traição ainda não lhe doía enquanto perda, mas como um espelho quebrado. Doía como os cacos de um espelho quebrado entrando, um a um, em sua pele envelhecida.
Nos dias que se seguiram sem Alonso, sozinha naquela casa sem vizinhos, sentira-se miserável. Até os cachorros a olhavam com pena. As seriemas das três da tarde, por outro lado, riam da sua desgraça. Poeticamente até pensara: Eis o destino dos velhos. Mas Alonso também era velho, mais que ela até, e ele arranjara a sua sereia.
Será possível que essa coitada achou que ele é rico?
Quando Armando chegara de São Paulo, ela nem lhe dera muita conversa. Estava era com birra dele também. Onde já se viu, carregar nove meses na barriga para em troca ele acobertar o pai. Não dizia, só pensava. Não dizia quase nada, na verdade. Anunciava quando o café, almoço e janta estavam prontos, e só. Armando a princípio tentara conversar com Adélia, depois tentara apenas ser compreensivo, depois se sentira apenas grande demais naquela casa, dera um beijo na testa da mãe e voltara para São Paulo. Na saída até pedira que ela perdoasse o pai; que ele sempre fora sonhador e que, na idade dele, o certo era fazer o que dava na telha.
Ela se segurou, se segurou muito, para não dizer que dera muito na telha dela matar Alonso e jogar suas tripas para os cachorros comerem. Mas o melhor era ficar quieta. Limitou-se a um Vá com Deus, manda lembrança pra Eduarda.
Já fazia algum tempo que o filho partira. Agora ali, três da tarde, o trabalho de crochê recém-largado no sofá. Suspirava com uma saudade... Não de Alonso ou de Armando. Outra coisa. Algo antes. Antes talvez até do próprio nascimento dela, Adélia. Era um chamado chamando baixinho do fundo do ouvido, um barulhinho gostoso de água de rio. Sorriu, involuntariamente. O coração palpitava de leve. E aquela saudade, aquela saudade aumentando, aumentando... E a casa, tão escura e opressora naquele horário...!
Nem bebeu café, nem escovou os dentes, nem penteou o cabelo ou passou uma corzinha nos lábios. Não se preocupou com os cachorros, com o preparo da janta ou com as plantinhas. Nem mesmo trancou a porta quando saiu. Queria era andar. Não para respirar ou espairecer a cabeça — mal se lembrava de que oxigênio e pensamentos eram condição humana. O que fazia era atender a um chamado muito, muito antigo. Um chamado de água, um chamado manso, quase um chamado carinhoso de mãe. Só precisava era andar. Ignorar a dorzinha chata nas pernas e andar, andar, andar.
Chegou à beira do Ribeirão das Batinas quando já era noite adentrada. Não se recordava do caminho, ou se tinha encontrado conhecidos no caminho. Talvez não; teriam estranhado seu jeito e a levado de volta até a casa.
Que engraçado, parecia que voltava para a casa era agora. Estava ali, no seio do mundo, e sentia-se recebida por milhares de anjos.
Não. Anjos não. Sereias.
Elas existem, Alonso escrevera.
O Alonso é um tapado, mas vai ver nisso ele tava certo.
Olhou ao redor, para as pedras respingadas de água que brilhavam ao toque da lua cheia. Uma noite tão boa, tão bonita.
Lá longe, viu o que parecia um homem deitado de um jeito largado demais para ser um homem. De um jeito inchado demais para ser um homem.
A brisa noturna lhe trouxe um ar fétido ao qual logo se sobrepôs um cheiro agradável, erva-fresca e flor-silvestre.
E de repente, no meio do ribeirão de água agitada e rápida, um sorriso bonito como a lua. Um sorriso da mãe mais amorosa e da irmã mais querida e da amante mais lasciva.
Eis o destino da nossa espécie, pensou, quase poeticamente.
Aceitou o convite. Tirou os sapatos e entrou na água.

8 comentários

  1. Oi, Larissa como vai? Menina que conto bem escrito é esse hein!. Parabéns! Adorei a forma como foi desenvolvido, sua técnica de escrita juntamente com a simplicidade da estória deram um ar nostálgico e singular a este conto. Ficou muitíssimo bom. Seu talento é formidável. Aproveite o fim de semana. Abraço!



    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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    1. Luciano, bom dia! Vou bem, e você?

      Muito obrigada mesmo, demais ❤ Lembrei de você comentar um dia desses que sentia falta dos contos por aqui, e desde então fiquei com vontade de trazer algum texto em prosa para cá. Obrigada duplamente então! Ainda mais com um retorno bonito desses ❤

      Abraço enorme para ti e um ótimo fim de semana!

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  2. Anônimo22/8/20

    É uma coisa repetitiva dizer isso - eu detesto repetir-me - mas não tem outra maneira de dizer que tu é excelência quando escreve, sejam poesias ou contos ... penso que tu esta formada para tocar o mundo. Eu fiquei lendo, seguindo os passos e querendo chegar ao final, mas sem querer chegar. Eu queria saber o final, mas precisava de mais.
    Muitíssimo grato por hoje.
    Abraço e feliz domingo.

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    1. Muitíssimo grata a você sempre! É de uma importância e beleza enorme, para mim, ler comentários como o seu. Obrigada mesmo!

      Abraços e um ótimo domingo para ti ❤

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  3. Que conto maravilhoso Larissa, daqueles que ficamos a pensar tanto ao final, deixa tantos espaços vazios, entrelugares, águas imaginárias. Adorei!

    Beijos!

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    1. Que bom que você curtiu o texto, Gaby, fiquei tão feliz por isso! Aaaah, obrigada mesmo ♡

      (p.s: tenho um fraco por finais em aberto, haha!)

      Beijos e uma semana linda para você!

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  4. Lari,

    Eu tinha esquecido como era gostoso te ler. Teus contos. A maneira como eles prendem minha atenção, nossa! Sigo os parágrafos com ânsia do próximo, de desvendar o que virá. O final me deixou imaginando um monte de coisas. E eu gosto assim, pra ser sincera.

    Você é uma das escritoras mais completas que conheço. Suas construções sempre me deixam muito impactada. Obrigada!

    Um beijo.

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    1. Que comentário mais bonito para começar bem minha semana, Jaya querida ♡ Muitíssimo obrigada, mesmo!

      Beijos! Fique bem, tenha uma semana repleta de encantos ♡

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