Leve

Levemente embriagada,
apenas levemente,
o álcool apenas 
como o toque de pimenta
em um prato natalino
e levemente como me sinto,
agora,
de lábios e língua roxos,
levemente distendida
tocando a cama
e a vida
que se despede
com hora marcada
aos finais de ano
e recomeça,
constrangida,
alguns momentos depois.

O Natal das aranhas


1.

As aranhas tecem a própria casa
e confeccionam seus próprios enfeites:
elas mesmas. 

2.

As aranhas-enfeites dançam,
para cima e para baixo,
fazendo seu próprio espetáculo.



Caldas, MG (Brasil). Dezembro de 2020.

As coisas que dão poemas

Às vezes eu me pergunto sobre as coisas
que dão poemas...
Por exemplo,
a dor de cabeça:
a dor de cabeça dá um poema?
Mas, perguntando-me sobre as coisas
que dão poemas, 
foi inevitável
que eu visse esta imagem:
as coisas,
quaisquer que sejam,
dando, literalmente, poemas,
como quem dá um presente,
como quem dá uma esmola
ou como quem dá uma roupa
que não serve mais,
e há uma grande diferença
entre a forma como
as coisas dão e são dadas...

(Se eu, por exemplo,
der a você este poema,
você pode até guardá-lo
como uma carta de amor.)

Como se mais nada


O último raio de sol bate no guarda-roupa e é por um segundo, apenas. Com a brisa fria que segue depois que ele se esconde, as cortinas fremem. Sinto-as como que desconfortáveis, como se suas dobras onduladas acotovelassem umas às outras sussurrando: “Quem pergunta?” Respondo a todas antes que qualquer uma se voluntarie: “Não, ainda não.” Elas sossegam, decepcionadas. O escuro do céu, que estava em suspenso (também aguardando resposta), cai. Acendem-se as luzes dos postes. Vai a noite como se nada, como se mais nada, tivesse acontecido.


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