A introversão como refúgio e uma newsletter muito atrasada


Fiquei alguns meses sem enviar a newsletter e peço desculpas por isso! Meus horários de repente ficaram meio doidos e eu não estava conseguindo me organizar e dar continuidade aos meus projetos... Mas: acabei de enviar uma news feita com muito carinho e com a versão digitalizada da zine A introversão como refúgio (cujos vislumbres aparecem nas fotos deste post). Se você ainda não faz parte da newsletter e por acaso se interesse em ser, é só colocar seu e-mail aqui. Abraços!
 

Maravilhas

No sorriso aliciano
da lua
alicio-me a
fenômenos planeta-literários
que fazem
da parte oculta
em breu
o
breu
em 
que
caio
em
mundos de sonho
onde as leis são outras,
e eu também.

Abiogênese

(1)

De repente
um nome,
que era só um nome,
vira mais que um nome.

(2)

De repente os olhares
se chamam
ao mesmo tempo
em que
se escutam
e se respondem
e ao mesmo tempo em que,
parados,
se dão conta
de que a função deles
é apenas ver.

(3)

De repente
o toque das peles
lança faíscas
que assombram
como se assombrou
o primeiro homem a descobrir o fogo,
e você se descobre dois.

(4)

De repente.

Ainda uma terceira lista de verdades semioníricas


  1. O trovão que ecoa ao longe finge ser de fúria contida.
  2. Quem conta um conto desmancha um ponto.
  3. As memórias perdidas são uma lenda cujo fundo de veracidade é outra lenda.
  4. Músicas grudadas no fundo da cabeça só saem com bicabornato de sódio e limão.
  5. Estralar os dedos sem aviso prévio pode despertar cachorros invisíveis.
  6. Cachorros invisíveis podem nos despertar da distração de estralar os dedos.
  7. É importante tirar as bijuterias antes de ir dormir para que não as percamos em nossos sonhos e, ocupados em procurá-las, tateando inutilmente o que acreditamos ser o chão, nos esqueçamos da hora ideal de acordar.
  8. A altura de uma montanha depende do comprimento das asas do pássaro mais velho a sobrevoá-la.
  9. As unhas sempre lembram umas às outras de crescerem todos os dias.


Agora menos

Todos esses poemas,
eu não sei de onde vêm.
Brotam das linhas noturnas
que medem meu quarto
de uma quina à outra
quando vou a sono alto.
Lá fora
em terras brasileiras
basta um sopro mais forte
ou um sopro mais fraco
ou nem mesmo um sopro
e já se revelam
mazelas defuntas
que sobrevivem ano a ano.
E nós vamos morrendo,
despachando-nos
em enterros rápidos
compartilhando covas sinônimas
na costela cavada às pressas
de um chão velho conhecido.
(E outros vamos vivendo,
como se não fôssemos agora menos,
como se não houvesse nada de mais.)

A angústia do poema

A angústia do poema só é necessária
quando
imediatamente
substitua a angústia do poeta
e naquele momento o poeta
passe a rir da angústia do poema
(ainda que a angústia
— e o poema —
não vejam a menor graça).

Pausa

Tenho feito tantas pausas
que não sei mais como chamo
os rápidos intervalos
entre uma pausa e outra.

É preciso uma pausa
para que se encontre uma palavra.

É preciso uma pausa
para que se encontre
essa nova palavra

em que também
vou repousar.

De algum momento antes da fuga


04 de novembro de 2020

Às vezes as datas me parecem importantes e não sei bem por quê. Talvez porque não sejam. Ultimamente tudo me parece tão distante, inclusive a data de hoje — esta, que marca o dia que mal começou e do qual já me despeço com um abraço cheio de saudade. Não é como passar o carro à frente dos bois: os bois fugiram todos. Ficou o carro no meio do caminho em que ninguém, nem os bois, passam. Talvez isso tenha acontecido hoje, nesta data de hoje em que busco algum sentido. Talvez a saudade seja de algum momento antes da fuga, que não presenciei.

Os limites do céu


Os fios dos postes
cortam em fatias
o céu quadrado
da minha janela.


"Certamente, há na minha casa todas as coisas inúteis. Só lhe falta o necessário, um grande pedaço de céu como o daqui. Trate sempre de guardar um pedaço de céu acima da vida, meu garoto." 

(No caminho de Swann, Marcel Proust, p. 73. Referência 1.)

O pós-antes

O momento 
antes
que a água ferva
que a porta bata
que o livro caia
que o gato pule
e que percebemos
como o momento
que não percebemos
O momento
despercebido
do prestes a acontecer
O momento
que morreu no 
momento seguinte
e que eternizamos
dentro do não-tempo
O momento
do não-momento
complemento do
memento mori:
o que não nasce
também morre.

Sacrifício às traças


Dançam páginas
danças mágicas
que só se decifram
a olhos e dedo

Dançam páginas
canções trágicas
de uma voz sem corpo
que inspira medo

Autofágicas
danças dançam as páginas
as quais se consomem
num tempo só

Dançam páginas
e na dança somem
mas sobram vestígios
no meio do pó



07 de janeiro, Dia do Leitor.
(Poema publicado no meu Instagram em abril do ano passado.)

Intimerário

Itinerário:
interior de mim mesma.
Caminhos familiares
percorridos de pés descalços
e meio-sorrisos
de quem se sabe
criadora de sonhos
e alimento de sonhos
e os sonhos me conduzem
(nada nos faltará).

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