Os limites do céu


Os fios dos postes
cortam em fatias
o céu quadrado
da minha janela.


"Certamente, há na minha casa todas as coisas inúteis. Só lhe falta o necessário, um grande pedaço de céu como o daqui. Trate sempre de guardar um pedaço de céu acima da vida, meu garoto." 

(No caminho de Swann, Marcel Proust, p. 73. Referência 1.)

O pós-antes

O momento 
antes
que a água ferva
que a porta bata
que o livro caia
que o gato pule
e que percebemos
como o momento
que não percebemos
O momento
despercebido
do prestes a acontecer
O momento
que morreu no 
momento seguinte
e que eternizamos
dentro do não-tempo
O momento
do não-momento
complemento do
memento mori:
o que não nasce
também morre.

Sacrifício às traças


Dançam páginas
danças mágicas
que só se decifram
a olhos e dedo

Dançam páginas
canções trágicas
de uma voz sem corpo
que inspira medo

Autofágicas
danças dançam as páginas
as quais se consomem
num tempo só

Dançam páginas
e na dança somem
mas sobram vestígios
no meio do pó



07 de janeiro, Dia do Leitor.
(Poema publicado no meu Instagram em abril do ano passado.)

Intimerário

Itinerário:
interior de mim mesma.
Caminhos familiares
percorridos de pés descalços
e meio-sorrisos
de quem se sabe
criadora de sonhos
e alimento de sonhos
e os sonhos me conduzem
(nada nos faltará).

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