Ainda uma terceira lista de verdades semioníricas


  1. O trovão que ecoa ao longe finge ser de fúria contida.
  2. Quem conta um conto desmancha um ponto.
  3. As memórias perdidas são uma lenda cujo fundo de veracidade é outra lenda.
  4. Músicas grudadas no fundo da cabeça só saem com bicabornato de sódio e limão.
  5. Estralar os dedos sem aviso prévio pode despertar cachorros invisíveis.
  6. Cachorros invisíveis podem nos despertar da distração de estralar os dedos.
  7. É importante tirar as bijuterias antes de ir dormir para que não as percamos em nossos sonhos e, ocupados em procurá-las, tateando inutilmente o que acreditamos ser o chão, nos esqueçamos da hora ideal de acordar.
  8. A altura de uma montanha depende do comprimento das asas do pássaro mais velho a sobrevoá-la.
  9. As unhas sempre lembram umas às outras de crescerem todos os dias.


Agora menos

Todos esses poemas,
eu não sei de onde vêm.
Brotam das linhas noturnas
que medem meu quarto
de uma quina à outra
quando vou a sono alto.
Lá fora
em terras brasileiras
basta um sopro mais forte
ou um sopro mais fraco
ou nem mesmo um sopro
e já se revelam
mazelas defuntas
que sobrevivem ano a ano.
E nós vamos morrendo,
despachando-nos
em enterros rápidos
compartilhando covas sinônimas
na costela cavada às pressas
de um chão velho conhecido.
(E outros vamos vivendo,
como se não fôssemos agora menos,
como se não houvesse nada de mais.)

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