Alcova do amor-morrendo

Abrir janelas
como quem se afasta de um sonho
que predizia um amor-morrendo.

Respirar um ar menos moribundo,
livrar-se do peso de ter memórias,
abrir os olhos mais que as janelas.

Revisitar a alcova
do tempo em que se diziam “alcovas”:
morria um amor dentro de mim
como quando as mortes
eram familiares;
reuniram-se dentro de mim
perplexidades várias
e todas enlutadas
e apertadas no mesmo espaço
e ­as carpideiras
choravam tão alto
que palavras finais,
se houve,
não foram ouvidas.

E olvidaram-se
à primeira brisa.

"Ser um par de olhos"

"Até a janela há o infinito
soando nos limites dos meus passos. Cinco.
Ser um par de olhos, isto sim,
piscando a paisagem distorcida.
Ontem
meus versos sangraram a tarde nos morros.
Mas quero ver agora o que a manhã ensina."

Regis de Morais,
em "Cinco passos até a janela", O caminho dos ventos
Editora Papirus, 1983, p. 30

Duas chuvas

I.
(05 de fevereiro de 2022)

Ouvir os cochichos das folhas.
O verde se agita
antes das tempestades,
as árvores excitadas pelos ventos,
relâmpagos criando sempre
a grande expectativa do som.

II.
(16 de fevereiro de 2022)

Granizos em suicídio feroz:
os corpos se esvanecem
quando tocam o chão,
tornados em fantasmas.
Do sangue aguado,
a chuva limpa os rastros.

Formulário de contato (para a página de contato, não remover)