Tudo tem muitas nuvens

me parece ocupação adequada
em dias de sol tão único.

Há alguns anos, por volta de dezembro (quando as nuvens são mais vastas), eu imaginava que cada visão do céu diurno nublado poderia revelar uma cena muito antiga: via cavaleiros em contenda, via carruagens cheias, via mulheres gordas com penteados altos. Talvez essa exata cena corresponda a um exato momento histórico do passado. Como se o céu fossem fotos de épocas em que não havia fotos.

Mas, assim, o céu seria parcial: escolher uma cena em detrimento de outra. O céu seria propaganda ufanista: mostrando cenários de guerra no exato momento em que o exército tal se saísse vitorioso, e como se de fato houvesse alguma vitória. O céu seria como os deuses gregos escolhendo seus heróis. E suas canções.

Mas nada é tão certo e tão simples quanto parece. Tudo tem muitos quadros. Tudo tem muitas nuvens.


"Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa, para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpadas. Entre as vítimas há carrascos."

Isabela Figueiredo,
Caderno de Memórias Coloniais
Editora Todavia
2018, p. 136

"Het moeras" (entre 1885 e 1888), por Anton Mauve

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