Desobediência


De que adiantam os alertas do meu juízo? Embrenham-se meus pensamentos por passagens que pouco conhecem — escuras, tortuosas, perigosas — e, num curto espaço de tempo, já se veem perdidos. No desespero, gritam. Gritam , gritam, gritam...! Em vão tapo os ouvidos. Dói-me a cabeça. Apelo ao sono, esperando, ardentemente, que meu subconsciente resgate os tais pensamentos (e que eles virem, de castigo, apenas sonhos vagos).

Vã tentativa


Deu cabo de uma lembrança, mas não conseguiu fazê-lo sem sujar de sangue as paredes do quarto. Manchas de sangue não saem fácil, e aquelas, para sua desgraça, não saíram de jeito nenhum. Ficaram ali, fazendo com que ela se lembrasse da lembrança. Duas vezes lembrança. Mil fracassos.

Arame farpado


Queria porque queria passar uma temporada na Lua. Já viajara para lá milhares de vezes no decorrer de sua vida, mas nunca permanecera no local tanto tempo quanto gostaria: as obrigações — infelizes! — sempre acabavam por arrastá-la de volta num piscar de olhos. Mas agora era diferente... Agora ela estava de férias! Iria para a Lua, o Maravilhoso Mundo da Lua, e ali encontraria novos amores, ali dançaria através da eterna madrugada, ali faria uma visita aos sonhos que não revia há tantos anos... 

Queria porque queria passar uma temporada na Lua, mas o dólar estava alto, o almoço tinha que ser feito e as crianças também estavam de férias, requerendo atenção. A Realidade, sentada à mesa, consolava: "Talvez no ano que vem, querida... Talvez no ano que vem..."

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