Amplidão


Fui tomada por uma convicção. 

Subi, subi rumo ao mais alto mirante da minha razão, determinada a, lá de cima, vislumbrar minha essência. Eu desejava entender a forma como meu passado me moldava... Enxergar meus caminhos como num mapa: ver onde é que os retos se entortavam e os tortos se endireitavam, ver como os estreitos se desembocavam nos de espaço amplo e como estes, de repente, se subdividiam em duas ou três outras passagens. Observar o fluxo dos rios salgados por lágrimas vãs, as árvores frutíferas dos meus esforços, as montanhas de momentos bons que recebi e fui guardando com carinho. Estudar-me com afinco, entender-me por completo; só assim eu nunca mais erraria em relação a mim mesma. 

Esqueci-me, contudo, de que a amplidão do ser não se esquadrinha racionalmente, de modo que, uma vez no mais alto mirante da minha razão, só vi névoa, névoa e névoa... 

No desespero, atirei-me no abismo que não via. Enquanto eu ia caindo, a névoa ia sumindo.

Sentença

As palavras que eu não disse ficam todas fechadas num cômodo. Sentadas no chão, rentes a uma parede, observam, mudas, a parede oposta. Permanecerão assim pela eternidade. Nem reclamam: foi-se o tempo delas; não têm mesmo mais nada a fazer.



Talvez e só talvez


A alma sob minha pele
Às vezes me foge um pouco pelos poros
E vai vagar por um não sei onde...
Talvez, de íris em íris,
De pétala em pétala,
De acaso a acaso,
Passe de sonho em sonho
E volte a mim até mais alma

Mas só talvez.

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