Todo e qualquer espaço vazio


Você ouviu o tropel dos cachorros de madrugada? Eles estavam fugindo dos boatos das vizinhas loucas. Diziam que a Terra está se partindo de desgosto, que a rachadura é tão grande que é provável que, amanhã pela manhã, já ouçamos o crack de um ovo gigante. Cairemos lá dentro, enquanto a lava escorre pelas bordas. Os cachorros sempre foram mais espertos do que os homens, mas acho que nem eles vão se salvar, se os boatos se provarem certeiros. 

Você sabia que todo e qualquer espaço vazio na galáxia já foi, um dia, ocupado por um planeta que se suicidou? 

Dias malévolos

Dias malévolos espreitam os sonhos dos que só temem.
Trovões reboam por detrás das colinas
provando que nem as colinas são seguras
e que na hora da fuga
é cada um por si.
Coma bem, meu bem, e se exercite...
Os não saudáveis 
serão os primeiros a queimar no inferno
porque estarão fora de forma 
— disse a nutricionista sorridente
com a qual José sonhou.
José teme Eduarda porque Eduarda é bela,
e teme ficar a sós com o chefe
e não ter o que dizer.
José teme aranhas e buracos profundos,
José teme que os dias não mudem
mas também teme que mudem.
José teme trovões barulhentos
a lembrarem-lhe de que o fim está próximo
e ele ainda nem começou a academia
porque tem medo de não gostar.
José tem certeza
de que quando os demônios estiverem soltos
ele será o primeiro a ser pego,
é sempre assim,
ele vai tentar correr
mas vai cair,
e o demônio vai lhe dizer
E agora, José? E agora?

“E agora?”, pensa José.

Mais um gole do café,
e se prepara para um dia longo e malévolo
em que ficará a sós com o chefe.

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