Honra ao mérito


Certezas não duram mais do que a glória dos heróis. A queda é rápida e violenta, e dos ossos quebrados não se reconstituem verdades que fizeram sentido quando os governos eram outros. Dos ossos quebrados não se fazem nem exposições paleontológicas... (O lucro é parco e não cobre os gastos, e quem é que quer saber qualquer coisa de qualquer coisa que não diz coisa com coisa.) O que se pode fazer é ver se há cachorro disposto a lhes sugar algum tutano — se não, joga-se terra por cima. Limpa-se bem as mãos. Finge-se que nada aconteceu.

Na caixa abandonada

Na garagem se guarda a caixa
dos sonhos que não servem mais.

Não se doam sonhos,
nem se os descartam
nos caminhões que passam terça e quinta
às nove da manhã.
É preciso arranjar-lhes espaço
(em casas já tão apertadas)
assim que se apartam de nós.
É preciso enrolá-los em jornais velhos
— não porque se assemelhem a refugos de mudança
mas para que se distraiam com as notícias
do tempo em que tinham função.

(Além disso, distraídos, não ficam a nos chamar e a nos encher o saco.)

Depois se fecha a caixa.
Depois se guarda a caixa na garagem,
na prateleira mais alta,
tão longe da vista quanto possível for.
Depois se pensa nos ex-sonhos com carinho,
no tempo em que nos serviam,
e os imaginamos abandonados
na caixa abandonada
no canto abandonado.

Já leram as notícias todas.
De tédio, mataram-se uns aos outros
a amaldiçoar nosso nome
e os dêiticos dos jornais.

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