Abarcar

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
apenas chegaram até meus pés
qual onda perversa que não convida,
mas atiça.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
das suas asas,
apenas um afago sutil
de quem consola prevendo o choro.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
cobriram-me como manta curta
que mais enfeita
do que esquenta.

(Vedou-se me contar com
mergulhos,
voos,
calor.)

Meus sonhos me abarcam por completo:
voltei a eles
como quem volta à própria casa
e se sente bem.

Abarco por completo os meus sonhos.



Descuido

O cachorro morreu de sede
num cesto
dentro do armário.
Quando o vi,
tal anjo que subiu aos céus,
arranquei-me os cabelos a pensar no meu descuido
— no que faço aos meus afetos
— na sede a que os relego
— por que é que os renego?

Por que é que sou assim?

Egoísta!
Não vão lágrimas
matar de sede nenhuma alma...

Mas talvez, quando eu acordar
a pensar sobre cestos, defuntos e Freud,
eu pense também sobre você
e sinta a mesma carência que matou o cão.

(E peça-lhe desculpas.)
(E peça-lhe que me mate a sede.)
(E peça-lhe que me ouça os sonhos.)

Nota sobre a perfeição


18 de novembro de 2018

Os dias têm sido compridos às vezes solitários sempre produtivos. Eu gosto e desgosto de como têm escorrido — o banho é parco, mas a água é morna e gentil à pele. Tenho me focado tanto em mim... De mente, de corpo, de alma: autoaperfeiçoamento constante. A perfeição é uma borboleta de voos altos e asas de vidro; persegui-la dos jeitos certos dá sentido à vida. Você entende? Não é sobre agarrá-la... É sobre questionar-lhe aos berros acerca da metamorfose. (É sobre aceitar a ausência de respostas: mais se aprende com os tropeços causados pelos olhos a mirar o céu.) 

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