Cata-ventos d’ouro

Sim, os cata-ventos de ouro
se extinguiram
porque os acusaram de bagunçar ideias.
Eu não estava lá,
no fatídico dia
em que os arrancaram da terra.
Eu não estava lá,
mas de geração em geração
se transmitiu a tristeza
pela ausência dos vislumbres dourados
a sorrirem no vento.
Assim é que me dói,
me dói profundamente
saber que em nossa praça havia
um grande cata-vento dourado
que sorria,
dia após dia,
em nossos vendavais.
E pensar que foi derretido
e que do metal belíssimo
denteou-se a família inteira
do prefeito suposto ilustríssimo.
Eu conto tudo isso a Lúcia
— tão lúcida.
Ela me olha com desprezo
e diz que sou bagunçada das ideias.
Aí eu perco a paciência...
Já disse, Lúcia, já disse! 
O que bagunçavam as ideias eram os cata-ventos d’ouro,
e há tempos eles não existem mais.

Abarcar

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
apenas chegaram até meus pés
qual onda perversa que não convida,
mas atiça.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
das suas asas,
apenas um afago sutil
de quem consola prevendo o choro.

Seus sonhos não me abarcaram por completo:
cobriram-me como manta curta
que mais enfeita
do que esquenta.

(Vedou-se me contar com
mergulhos,
voos,
calor.)

Meus sonhos me abarcam por completo:
voltei a eles
como quem volta à própria casa
e se sente bem.

Abarco por completo os meus sonhos.



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