Terra Poetisa

Expulsos da República, os poetas vagaram por séculos, como o judeu errante. Para eles, no milk, no honey, no gold and glory on the way. Nas solas endurecidas dos pés, escreveram a sangue versos que ninguém leria. Choraram uns nos ombros dos outros, com a sensibilidade que — essa, ao menos — lhes era permitida. Até que chegaram à Pasárgada — não a Pasárgada dos persas nem a Pasárgada de Bandeira, mas uma Pasárgada terceira, meio Atlântida meio El Dorado, com a qual calharam de topar. Ali se estabeleceram, destronaram reis, descriaram leis, pariram crianças e poemas. Carpe diem. Uma vida doce, tão doce... Tão doce que enjoou. Toda aquela bonança. Toda aquela mesmice. Toda aquela arte sobre a arte e a arte é qual parte, destarte? Expulsaram-se da nova República. Outra vez Ahasverus, partiram em busca de ter sobre o que escrever. 

Cata-ventos d’ouro

Sim, os cata-ventos de ouro
se extinguiram
porque os acusaram de bagunçar ideias.
Eu não estava lá,
no fatídico dia
em que os arrancaram da terra.
Eu não estava lá,
mas de geração em geração
se transmitiu a tristeza
pela ausência dos vislumbres dourados
a sorrirem no vento.
Assim é que me dói,
me dói profundamente
saber que em nossa praça havia
um grande cata-vento dourado
que sorria,
dia após dia,
em nossos vendavais.
E pensar que foi derretido
e que do metal belíssimo
denteou-se a família inteira
do prefeito suposto ilustríssimo.
Eu conto tudo isso a Lúcia
— tão lúcida.
Ela me olha com desprezo
e diz que sou bagunçada das ideias.
Aí eu perco a paciência...
Já disse, Lúcia, já disse! 
O que bagunçavam as ideias eram os cata-ventos d’ouro,
e há tempos eles não existem mais.

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